palavra-de-ordem

olhe, fernando, esse negócio de faça isso, faça aquilo, faça você está é cansado por demais. é jogo cansado, esgotado, sem força mais nenhuma. o problema disso já foi resolvido faz muito tempo, e de maneira mais inteligente.

e, no mais, é palavra-de-ordem, é o faça!, é o tu! - é experiência muito pobre com a linguagem: experiência de poder, de ordem, ideológica, que não oferece tensão nenhuma com o normal. é tensão muito frouxa com o mundo.

(sem falar nos problemas éticos - que o vaca amarela entendeu muito bem; aliás, a melhor intervenção no trabalho foi a do vaca: a única que suspendeu mesmo a lógica, que desviou, pois todas as outras estão dentro da ordem, da palavra-de-ordem, do faça como eu peço; e é curioso pensar que basbaum "não gostou" - pois doar o objeto ao museu foi o gesto que saiu fora do regulamento, da regra dele)

* * *

dia desses, acho que na última revista cartaz, naquela página ineditus, também um sujeito dizia: pendure maças em árvores, fotografe e mande para este e-mail, etc. uma coisa assim, sempre dessa maneira - em segunda pessoa. fiquei pensando - por que não pendura ele mesmo e fotografa? se a idéia foi dele, a grande idéia, ele que realize.

[V.R]

Basbaum no Palácio Cruz e Sousa


NBP é um objeto criado por Ricardo Basbaum. É um troço estranho mesmo, basta olhar na foto. Não é bonito, não é atraente, não é útil. Não daria nem um caldo. Pelo contrário, é estranho, é grande demais, enfim, é um trambolho. A idéia, no entanto, é que as pessoas se apropriem do objeto e façam dele o que bem entenderem. Ou seja, a proposição artística é apenas incitada pelo objeto. Basbaum propõe, em verdade, vivências em torno dele.

Já comi uma cuca de banana dentro do NBP. Isso mesmo. Cássio Ferraz, em edição do Espaço Contramão, decidiu fazer uma cuca gigante usando o NBP como forma. O Grupo Vaca Amarela, por sua vez, mandou o NBP para o acervo do Museu de Arte de Santa Catarina. A polêmica, até hoje não resolvida (até onde sei o Basbaum continua puto com o pessoal do Vaca Amarela), despertou um problema em torno do objeto. É possível se fazer tudo, ou quase tudo, que se quiser com o objeto.

Vaca Amarela problematizou o objeto ao enviá-lo para o acervo de um Museu de Arte. Tudo o que o objeto não se quer ser é acervo. Quer ser vivo, circulante, produtor de sentidos. No entanto, Vaca Amarela quis produzir sentidos pela via da negação. Basbaum não gostou.

Tem uma questão que me incomoda: acho interessante essa coisa do objeto não ser obra de arte em si. Ele precisa do outro para ser ativado. Isso é ponto comum. No entanto, os créditos de toda a história não ficam para o outro, mas sim para o Basbaum. Legal, criar um objeto, jogá-lo ao mundo e ficar colhendo os créditos como quem apanha bananas no quintal do outro. Em última instância, é isso mesmo o que ocorre. Ou será que os nomes do Vaca Amarela ou mesmo do Cássio Ferraz vão para a Documenta? E se for, vai ser nota de rodapé ou então em algum lugar do site do projeto. Quem vai estar no catálogo, quem vai viajar para a Europa, quem vai engordar o currículo vai ser o Basbaum.


* * *

Ricardo Basbaum é referência para a arte contemporânea. Tanto seus trabalhos artísticos quanto sua produção teórica são discutidos exaustivamente nos departamentos de artes visuais pelo Brasil e, particularmente, aqui no CEART/UDESC. Vez por outra, ministra cursos por lá.

* * *

Sei que vou ser malhado por este comentário sobre o Basbaum. Mas foi a impressão que tive ao estar no museu. Por sinal, essa coisa de ele estar no Museu é também um problema... Pode estar na sala de exposições, mas no acervo, não. Mas não vou entrar nesta questão. Informações sobre o projeto de Basbaum podem ser encontradas no http://www.nbp.pro.br/


[F.C.B]

notícias

nesta semana, assisti duas oficinas oferecidas pelo museu victor meirelles, de florianópolis. a primeira, sobre o sistema de artes, com cristiana tejo, de recife, aconteceu na segunda e terça-feira. após o feriado, foi a vez da artista e crítica carla zaccagnini falar sobre crítica de artes, na quinta e sexta.

* * * * *

cristiana, no primeiro dia, fez uma abordagem mais histórica da arte no século 20, procurando mostrar a relação do artista com a política, os museus e a história. dentro desses problema, falou de duchamp como um estrategista – o que faria dele, também, um contemporâneo; falou das vanguardas, e dos primeiros questionamentos da relação entre obra e mercado.

no segundo dia, partindo de bauman, cristiana introduziu a maneira como o sujeito de hoje lida com o espaço e tempo, dizendo um pouco das diluições de algumas fronteiras, a criação de outras, relação centro / periferia, etc. cristiana discutiu questões mais contemporâneas, falando da condição do artista hoje – exposto a uma “identidade móvel”, a uma relação mais “cosmopolita” e estrangeira com o outro. parecia interessada em enfatizar a relação do artista com seu momento histórico, e de como seu trabalho é construído e afetado também na relação com a história e sobretudo com as instituições, que parece um problema central na discussão de artes visuais.

no final, disse também de sua relação com a cidade e os artistas de recife, na condição de coordenadora e curadora de artes plásticas da fundação joaquim nabuco – e de como a cidade foi se tornando mais aberta à arte contemporânea somente a partir de meados da década de 90, por conta de um interesse surgidos nos artistas de dentro em construir outras soluções para a arte na cidade.

* * * * *

na oficina de carla, a ênfase foi na prática da crítica. num primeiro momento, carla construiu uma conversa em torno de alguns exercícios de descrição de obra, procurando discutir a maneira singular de cada pessoa olhar para um objeto - questão que também atravessa seu trabalho de artista. num segundo momento, carla sugeriu algumas discussões em torno do exercício da crítica, partindo de seus textos e dos textos das pessoas que estavam fazendo a oficina.

carla sugere uma crítica que “construa um discurso paralelo ao trabalho do artista”. por vezes, em seus textos, carla nem cita o nome do artista e de seu trabalho, propondo uma intervenção textual mais aberta e menos valorativa. se sua proposta parece sedutora no sentido de fugir do discurso de valoração, ao mesmo tempo tendo a desconfiar da proposta textual enquanto dispositivo analítico, já que carla abre mão da própria materialidade do trabalho enquanto objeto de análise. carla, ao mesmo tempo, sugere uma discussão do que seja crítica, hoje: um discurso que legitime o artista? um discurso que dê conta do trabalho? parece, também, questionar se ainda faz sentido um texto que discuta valor. enfim, seus textos parecem querer ficar num limite entre crítica e ficção, até porque carla escreve muito bem. e nisso, penso, há perdas e ganhos.

[V.R]

colunismo cult

é tudo mentira o que andam dizendo pelas esquinas de florianópolis - que a construção dos shoppings representa os grandes acontecimentos culturais da cidade nos últimos tempos.

* * *

florianópolis parece entusiasmada com cultura. semana passada, muitas coisas na cidade. só na terça-feira aconteceu a abertura do rumos, de artes visuais, no MASC; estréia do novo espetáculo do Cena 11, no teatro do CIC; recital de piano da alberto heller, no TAC; e ainda terça com poesia, na UBRO, com o poeta mauro faccioni filho.

(também tinha um evento de performance no Palácio Cruz e Souza, mas estava tão bem organizado que não consegui descobrir o horário certo das performances - acabei desistindo de esperar em frente ao museu, na quarta, e mais uma vez, por acaso, quando estava voltando para casa, assisti pedaço do espetáculo de rua DESVIO, que propõe intervenções muito interessantes na cidade)

ainda teve, no restante da semana, curso com a bianca tomaselli, sobre modernismo em santa catarina, na univali - onde, entre outras coisas, bianca questiona a pertinência de pensar a existência de um modernismo no estado, já que nas décadas de 40 e 50, com estado novo e governo vargas, existe uma organização legimitada dos discursos em torno desse movimento, perdendo sua potência anarquista inicial.

ainda teve EmCena Catarina, sexta-feira, no SESC-Prainha, com a peça S.O.S. Uma Mulher Só. ainda teve, ainda, no sábado, lançamento do curta-metragem Eternáu, de um grupo de porto alegre, no espaço ARCO, com direito a festa depois com alejandro tocando até o amanhecer.

* * *

- mas isso parece coluna social!

- pelo menos é cult.

[V.R]


O gosto do outro

“O grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais.
Contudo, assim como essas camadas abrangem o estrato camponês, marítimo e urbano,
nos múltiplos estágios do seu desenvolvimento econômico e técnico,
assim também se estratificam de múltiplas maneiras os conceitos
em que o acervo de experiências dessas camadas se manifesta para nós”
(Walter Benjamin, O Narrador)

Certo, Victor. Concordo com você em relação ao processo muitas vezes massificante de se levar 30, 60, 500 crianças para os museus. O que ocorre é que as visitas, por vezes, tornam-se visitas de caráter civilizatório, o que é terrível. Por sinal, acho as ações educativas nos museus, na maioria das vezes, deseducadoras de uma possível sensibilidade estética do público.
Com relação às diferenças entre os sujeitos, também não creio que elas se encontrem, de maneira determinada, na posição social/classe. A micro-história está aí para mostrar isso, a literatura moderna e contemporânea também e aí por diante. Agora, há uma coisa (que, por sinal, o Hélio Oiticica, a Lygia Pape e esse pessoal já haviam percebido na década de 1960) que diz respeito às diferenças sociais e ao modo como elas desencadeiam profundas diferenças culturais. Os “Parangolés”, do Oiticica, são isso: objetos-híbridos, que transitam entre culturas/classes distintas, que só puderam existir porque o Hélio e as Lygias subiram o morro, dialogaram, produziram e conviveram com a gente de lá. Com isso, puderam descer o morro e entrar no MAM, causando o maior furor, exatamente porque os “Parangolés” traziam um código cultural/social que ninguém que estava no MAM era apto a entender. Do mesmo modo, acho que não compreendemos bolhufas do “caldo cultural” das favelas seja daqui, seja do Rio, seja de Nova Délhi. Estamos preparados para entender o nosso discurso – a refletir num eterno jogo de espelhos - e pouco nos importamos com os de outrem.
E não podemos esquecer que é sobre esta diferença proposta por Hélio e Lygias que está engendrado discurso da arte contemporânea de hoje em dia no Brasil. A maior parte dos artistas atuais se remetem a Oiticica, Clark, Pape, entre outros como referências centrais. No entanto, como a tese da Ana Lúcia Vilela está percebendo, eles largaram mão da experiência (uma experiência extremamente ligada ao outro/diferente, à política e a uma certa narratividade do procedimento) e retornaram ao circuito das artes com uma voracidade e voluptuosidade impressionantes.


Laura Lima, por exemplo, coloca dois indivíduos em uma roupa que só caberia um, para poder fazê-los se tocar, se experienciar, etc. Isso é totalmente inspirado nos macacões da Lygia Clark. No entanto, os trabalhos desta última eram para ser vivenciados, interagidos entre as pessoas. Já o da Laura Lima, as pessoas que executam as ações são contratadas e filmadas/fotografadas (para entrarem em Bienais). Em última instância, o registro é mais importante que a ação. É terrível: eliminou-se o gosto do outro. E isso está também na política das instituições museológicas que acabou por afastar o grande público de si. [F.C.B]

ainda, diferenças

veja, fernando, deixe eu esclarecer: não gostaria que interpretasse minha postura como elitista - embora você não tenha dito isso, pode parecer. deixo claro que acho políticas de formação de platéia e democratização da arte algo fundamental e precioso. só acho - e isso é achismo mesmo, porque entendo muito pouco do assunto - que às vezes podemos cair em posturas equivocadas e um pouco ilusórias. por exemplo, machado de assis deve ser dado para adolescentes? os sertões deve fazer parte da lista do vestibular? como deve ser conduzido esse processo? mesma coisa com museus, pergunto: o fato de 30 crianças assistirem a determinadas exposições necessariamente significa que aquelas exposições digam alguma coisa para essas 30 crianças? meu medo é que isso pode tornar-se um processo nulo, pois a leitura - qualquer leitura -, embora também esteja ligada a processos emocionais, afetivos, enfim, é também um processo cognitivo, e deve ser também aprendida mesmo.

quanto às diferenças, não creio que elas se encerrem em diferenças de classe. posso estar equivocado, mas vejo algo determinista em sua pergunta. diferenças são também construções, descontinuidades, desvios que se fazem no discurso e na história. e de qualquer maneira, trazemos histórias singulares. você, como historiador, sabe disso melhor do que eu.

[V.R]

Diferença entre iguais?

Alto lá: independente de ser biscoito fino ou ser algo que atinja poucos com sua potência, há uma questão aí, que tu colocaste com exatidão: a construção da diferença.

Construir diferenças entre iguais? Isso te parece possível?!? A potência não está apenas no objeto em si, no trabalho que o artista apresenta, não mesmo. Está também em sua capacidade de criar relações com o diferente e isso é praticamente impossível no atual panorama (não te esqueças, o dito biscoito fino das massas é uma expressão incorreta posto que jamais as massas participaram de maneira ampliada deste processo). E se isso for sonho modernista – querer ampliar o público – pois bem, meu nome é Fernando Modernista.

«F.C.B»

biscoito fino

quando me refiro à falência, nem me refiro aos números, fernando, mas penso na maneira como aquilo que é feito chega até as pessoas, como as discussões vão sendo conduzidas. nesse sentido, acho que a falência possui certa peculiaridade em nosso estado, sim. tenho acreditado, cada vez mais, em posturas positivas - acho que a melhor maneira de lamentar se dá na construção de uma diferença. penso que não importa se dez pessoas ou duas mil pessoas estão participando de algo, visitando um museu ou lendo um livro, mas que esse algo signifique e complexifique alguma coisa na vida dessas pessoas, que exista uma potência naquilo. (na verdade, eu acho que importa, sim, o número das coisas, principalmente para as instituições, mas não saberia discutir isso sem sair do senso-comum, pois sou mais afetivo que político).

e não tenho tanta certeza, mas não lembro do tempo em que a arte foi algo presente na vida das massas. quer dizer, o biscoito fino às massas de oswald parece um sonho modernista frustrado, não te parece? leminski também dizia: poesia não vende, e é bom mesmo que não venda. pois talvez o vender, da maneira como vão as coisas, signifique não a grande vida da poesia, da arte, uma espécie de salvação, mas justamente sua morte. isso não parece a você?

[V.R]

Ainda sobre a falência

A falência é questão central das artes no Brasil. Em Santa Catarina, nem se fale. Vimos isso ontem na discussão sobre o cinema (e o teatro, afinal vários que ali estavam também compõem o circuito teatral). Artistas são geniais ao reclamar. Produtores e burocratas também. Eu também. Achamos a lógica de tudo. Quem é amigo de quem, quem não cumpre seu dever. Quem está diretamente prejudicado. É uma merda. Olha lá: os bares se enchem com os burburinhos das sacanagens, das covardias, da falta de bom senso das secretarias e fundações de cultura, do ministério federal. Enquanto isso, artistas fazem projetos, projetos, projetos e mais projetos. Alegam não ter dinheiro para executá-lo. Ok, certos projetos precisam realmente de algum recurso – basta pensar em um Richard Serra ou mesmo em um Eduardo Frota – no entanto, outros tantos, precisam de coragem e desprendimento, exatamente coisas que faltam no espírito contemporâneo. No entanto, quando algum museu de peso solicita uma doação ou permuta de um trabalho para um artista, aí se dá um jeito de produzir, de criar, de trabalhar. Pagam o SEDEX de envio ao museu, inclusive. [F.C.B]

* * *

TRAPLEV É IMPORTANTE

Nesse sentido, considero o trabalho de Traplev importante. Ele faz desta apatia, deste marasmo, desta falta de expressão (por vezes até facial dos artistas, por isso, os atores me agradam mais na convivência, pelo menos eles sabem se divertir com seus próprios rostos) motivo de seu trabalho. Claro que isso pode ser uma faca de dois gumes: à medida que ele se envolve cada vez mais com estas questões ele terá uma cruzada pela frente: se a situação melhorar, ele terá que produzir seus trabalhos artísticos e a coisa do reclame sobre a política cultural ficará fora de lugar. Para onde irá seu trabalho? [F.C.B]

* * *

ROBERTO FREITAS TAMBÉM

Outro artista fundamental é o Roberto Freitas. Transformou sua casa em galeria. Para além de sua insatisfação com o sistema atual das artes locais, há uma proposta efetiva. E isso é importante. Sua casa está geográfica-estrategicamente localizada: ao lado do CEART/UDESC. É claro que o problema é o de sempre: até onde vai a reverberação da ARCO? Será que ela não seria mera extensão do CEART? Será que há espaço para diálogo com o outro, com o diferente ali?

* * *

MUSEU NÃO É COISA PRA POBRE

Por sinal, o problema que apontei para a ARCO também se refere aos museus. E isso independe de estar próximo ou não do centro de produção de artes das cidades. O que ocorre é que não há espaço para o outro, para o diferente. Não conheço nenhum programa de incentivo à classe baixa aos museus. Os programas educativos fazem o seguinte: encher os museus de crianças, que podem ser educadas, que vêm em turmas, que gostam ou não gostam dos trabalhos sem maiores problemas e que multiplicam o número de visitante/mês, justificando socialmente a estrutura. A verdade é que os museus, pelo menos em Fpolis – mas, na verdade, também em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, que é o que eu conheço – são destinados a um determinado público e não faz o mínimo esforço para chegar ao que seria diferente deste público. Mesmo que as estatísticas mostrem uma drástica diminuição do público dos museus, nada é feito no sentido de pensar isso. Eu tenho uma explicação para isso: o declínio econômico brasileiro pós-ditadura levou milhares, ou melhor, milhões a adentrar nas classes “média baixa” e na própria classe dita “baixa”. Automaticamente, o público se tornou rarefeito. Mas os museus, mudaram? Por mais que se argumente que surgiram programas e agendas culturais, uma interdisciplinaridade, etc. elas são, em sua maioria, destinadas para o mesmo público. Como melhorar a apreensão e vivência deste público nos museus? Como pagar os artistas? Como melhorar as reservas técnicas? Como tornar os acervos seguros? E, particularmente, no que diz respeito a esta última questão, há um preconceito dramático nas direções e corpos técnicos dos museus. Não se leva o pobre para o museu porque se tem medo que eles roubem (ou venham a roubar) peças do museu. Ou então que toquem nas obras, que as derrubem, enfim, que não sejam civilizados. É isso aí. Pobre = ladrão. É isso aí. Não estou dizendo nenhuma besteira. Esse preconceito que atravessou o século XX, vindo do XIX, chega forte e vivo ao XXI, misturado com um quê de profissionalismo e tecnicismo. Isso é foda. Por que não levar funk para o museu? Por que sempre são as mesmas orquestras eruditas a se apresentarem nos museus? Por que ao invés de fazer ação educativa junto às escolas, não ir aos conselhos comunitários? E ficamos sempre na mesma bolha que se, pelo menos, estivesse inchando, seria melhor. Mas o pior, no entanto, é que ela cada vez mais murcha, murcha, murcha... [F.C.B]

* * *

MAURÍCIO MUNIZ TEM(^) MUSA(S)

Ao Chicão (in memorian)

Por isso gosto de Maurício Muniz. Largou a medicina (que lhe traria dinheiro), a arquitetura (que lhe traria algum dinheiro) e se lançou à arte (que não lhe traz dinheiro algum). No entanto, vive. É feliz. Adaptou-se, criou laços, aprendeu a viver por si. Vive de e com arte. Seu dia é arte. Quando quer produz. E não fica produzindo feito um louco, como uma indústria. Trabalha quando lhe vem idéias, vontade e musa. Salve Maurício.
p.s.: Carlos Asp também pertence a esta etnia de artistas.
[F.C.B]

pela corrupção da falência


em florianópolis, estamos acompanhando um movimento de manutenção da falência. praticamente toda a discussão da arte realizada na cidade, as representações na imprensa, hoje, seja na literatura, nas artes visuais, no cinema ou em qualquer outro lugar, gira em torno de como fazer parte desta falência, como entrar nela, e não de como corrompê-la. formadores de opinião que participam há mais tempo da discussão em torno de cultura se interessam por esta manutenção, evidente, pois é a falência que os torna notáveis; e os mais novos aparecem neste rastro, tentando catar os restos que ficam pelo caminho, e reivindicando o lugar da falência. dificilmente as perguntas “como construir outros caminhos? cavar outros buracos?” aparecem nessas discussões. não, preferimos a falência, ficamos com ela.

pude acompanhar uma conversa em torno do filme matou o cinema e foi ao governador, realizada no museu hassis, na sexta-feira. em certo momento da conversa, as pessoas que estavam discutindo (cineastas, produtores e críticos, mais novos e mais velhos) chegaram à conclusão de que 1) se os editais em santa catarina tendem a contemplar somente os projetos que promovam a “cor local” – machado de assis diria: ainda nisso? – 2) então a única possibilidade é o desenvolvimento de projetos que promovam, dessa maneira, a “cor local”, “que falem do daqui”. esta é, no final das contas, a grande e – por que não dizer? – triste conclusão a que se chega. depois daí, a discussão não avança mais, não se consegue nunca desatar esse nó, escapar dele. ficamos, portanto, no caminho óbvio, a saber - o da manutenção da falência.

sim, acredito que a realização do filme matou o cinema e foi ao governador foi uma importante iniciativa política, “de organização e resistência”, como as pessoas têm dito – e acho que o único esquecimento de luis felipe soares, em seu texto, foi não ter mencionado isso, colocando matou o cinema... ao lado de as procuradas, por exemplo – mas não vejo os rombos e o alcance político que o filme acredita ter feito. mais que isso, não vislumbro, com o filme, qualquer avanço na discussão de como construir outro cinema no estado, ou outra literatura, teatro, enfim – talvez não seja essa a discussão mais imediata, urgente, necessária? a proposição que o filme sugere, no final das contas, não seria a mesma? queremos fazer parte da falência. queremos o nosso pedaço nisso tudo. eis a fórmula.

de fato, assim, preferiria não.

[V.R]