Aline Dias



Quase nada. Quase nada no meio do vazio. Luz, talvez mais luz do que matéria. É assim: um pequeno cubo de quase nada no meio do vazio.

(F.C.B)

Bispo e Duchamp


(conversa em café)

V.R. se declara por Duchamp. Prefiro Bispo, digo. Não há como compará-los, retruca V.R.

É possível compará-los? Líamos ambos a biografia de Duchamp. Então, certo dia, Cláudio Trindade nos enviou por e-mail um vídeo de Arthur Bispo do Rosário (realizado por Fernando Gabeira, encontra-se no endereço
http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw).

Após lermos a biografia de Duchamp, vermos o vídeo de Bispo, o acaso fez encontrar eu, Victor e Cláudio no Centro de uma vespertina quarta-feira de muitos cafés. A conversa, é claro, acabou fundeada em Bispo e Duchamp.

Realmente não será possível compará-los/relacioná-los se estivermos na lógica da história da arte, da crítica ou mesmo das curadorias que são ações intelectuais que buscam coerências a partir de determinados eixos: histórico, estilístico, poético, regional, etc. Aparentemente, não há nada que ligue Duchamp à Bispo.

No entanto, nem que seja pelo acaso – que reuniu Victor, Cláudio e eu próprio para conversarmos sobre isso – sim, é possível pensarmos Duchamp e Bispo.

Duchamp era, sobretudo, irônico. Lançou mão do bom humor, do sarcasmo para desconstruir as artes plásticas (não consigo pensar em Duchamp, no entanto, sem considerá-lo um grande erudito, como alguém que conhecia, como poucos, a história da arte e as regras do jogo que operavam no circuito artístico. Ele nunca declarou isso, nem poderia fazê-lo, no entanto, tenho absoluta certeza de que o longo período em que trabalhou em bibliotecas foi ocupado com inúmeras leituras sobre arte). Erudição, ironia e uma pitada de iconoclastia: combinação explosiva.

Bispo, o sério, como lembrou Cláudio. Ao ser convidado para uma festa de São João, esbravejou que se tratava de coisa de pagão. Era preciso ver uma cruz que dizia ter nas costas, ao contrário, sequer se dirigiria à pessoa. Acreditava tanto em um céu cristão, com anjos e o Senhor o aguardando, que reordenou o mundo a seu modo em mantos, estandartes – objetos sagrados e militares. Desconhecia a história e o circuito artístico. Não se refletia neles. Seu espelho era outro: o céu.

A memória, para Duchamp, é coisa pouca, fonte de infindáveis jogos de humor (o bigode da Mona Lisa). Para Bispo, é sagrada, deve ser trabalhada para ser apresentada ao Senhor da melhor maneira possível (o estandarte com a memória total do mundo).

Duchamp iconoclasta. Conhecia tanto as regras do jogo, que pôde subvertê-lo. Bispo conservador. Acreditava tanto em um paraíso cristão, que se trancou em um quarto por sete anos para trabalhar e, assim, atingi-lo.

Sem Duchamp talvez não conhecêssemos a obra de Bispo, bem assinalou V.R. Foi aquele quem escancarou as portas por onde entraram a obra de Bispo. É preciso deixar claro, no entanto, que Duchamp escancarou as portas do campo das artes plásticas. Isso refletiu nas artes e não na vida (por mais que a arte contemporânea queira o contrário). Continua um movimento interno, para poucos (mais ainda).

Bispo era tão conservador, em sua louca fé cristã, que acabou por subverter – mesmo dentro de uma normatividade estrita – o campo artístico. Bispo não se vê no espelho do circuito artístico. Não precisa disso, mesmo porque não quer subvertê-lo. Seu verbo é transcender (palavra expulsa do vocabulário artístico desde os românticos). Pela ação estética Bispo quer atingir o céu. Acabou atingindo o circuito das artes visuais.

A verdade: interessa-me, em arte, um certo estado febril, estreitamente ligado à memória que retoma a experiência de vida para algo – nem que seja a morte ou a insanidade. É diante da morte que o assombro vislumbra. Bispo tinha a morte ao seu lado. Duchamp não tinha nada disso. Era um jogador de xadrez, pronto para uma próxima partida, que sabia exatamente qual o próximo movimento até arrecadar o xeque-mate. A ironia de Duchamp é de soberba (é preciso lembrar de Baudelaire, que dizia que o riso é um movimento de superioridade, de arrogância em relação àquilo de que se ri). Sentia-se tão superior àquilo que acontecia no circuito artístico que pôde se divertir as custas disso. Soube viver. Bispo soube morrer.


(F.C.B)

Bispo escravo


Em vídeo maravilhoso que está no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw), Arthur Bispo do Rosário diz a Fernando Gabeira:

“Eu não tenho noção de nada, eu não tenho tino. Tudo é de acordo com o que Ele mande que eu faça. Faça isso, faça aquilo, eu sou obrigado a fazer. É porque eu sou escravo”.

A loucura de Bispo, sua extemporaneidade é um assombro para a história da arte e mesmo para a política contemporânea. Enquanto novas proposições agitavam o panorama das artes e movimentos reivindicavam a liberdade política, sexual, social, religiosa, etc., Bispo dizia ser
escravo. E pior, escravo de um Deus cristão.

(F.C.B)


multiplicidade de contradições

Multiplicidade de contradições

(texto publicado no Caderno Idéias, do Jornal ANotícia, em Santa Catarina)

Victor da Rosa
Especial/Florianópolis

Junto a Fernando Boppré, no blog sobre artes visuais que vamos mantendo juntos [ www.arteporextenso.blogspot.com ], realizei pequeno comentário crítico às proposições de "NBP", do artista Ricardo Basbaum, que esteve, faz alguns meses, em Florianópolis. Recebemos, então, generosa resposta, primeiro do próprio Ricardo, e depois de seu irmão, Sérgio Basbaum. Certamente, estas respostas vêm de encontro com grande parte das questões que proponho discutir e, por isso, surge interesse por nova resposta, ou na realização de novas perguntas, agora um pouco mais pontuais. E resolvo publicar esta nova resposta em espaço mais público porque acredito que a conversa crítica, neste nosso Estado, precisa sair da fronteira do privado. Pois se tal conversa não servir para a mudança de algumas posturas, pode servir ao menos para torná-las mais claras.

Uma questão inicial, portanto, e que pode servir como ponto de partida: a proposição do artista Ricardo Basbaum, com "NBP", que busca alguma força pela interatividade e pelas relações que tal interatividade poderia gerar, consegue ser, no máximo, como as ações realizadas evidenciam, entretenimento para especialistas – sugere uma experiência para passar o tempo, e não tensioná-lo, reinventá-lo. A partir da pergunta feita pelo artista: "Você gostaria de participar de uma experiência artística?", alguns especialistas, pois se trata sempre de uma relação com especialistas, sugerem alguma intervenção no objeto – e geralmente uma intervenção banal, é preciso dizer. Dificilmente aparece alguma tensão maior com o circuito, com a história, ou com a proposição mesmo. O objeto de Basbaum não busca oferecer uma experiência com o "comum" – entendendo o "comum" no sentido de Giorgio Agamben, como o qualquer coisa, a abertura, categoria que pode provocar implosões em certos campos políticos, confundir fronteiras – mas somente uma experiência especializada, (de)limitada, portanto, dentro de regras marcadas e de um campo simbólico também absolutamente marcado, a saber, o da instituição universitária e do circuito artístico.

A proposição de Basbaum, mais, não oferece conseqüência estética alguma fora de certo circuito de normas, não faz movimentar a história para fora dela, e sua insistência só traz soluções cansadas e desgastadas a arte contemporânea: "a interatividade pobre", para usar um termo do próprio Basbaum, quando fala de "web arte". E é nesse ponto que "NBP" se afasta, ou fica muito aquém, enquanto proposta de tensão, de experiências como a de Hélio Oiticica, artista que Basbaum gosta de citar. E, para abrir outra conversa, cabe, aqui, perguntar – o que restaria do "NBP"? Ou qual seria, então, e de fato, sua força? Ora, o que sobraria de "NBP" enquanto força seria a maneira como seu funcionamento dentro deste circuito é operado, mas a maneira como acontece esta negociação só torna a experiência ainda mais contraditória. Para pensar estas contradições, portanto, sugiro alguma reflexão em torno de uma intervenção particular.

Faz quase dois anos, o grupo "Vaca Amarela", na época formado por alguns alunos da Universidade do Estado de Santa Catarina, alunos que hoje são artistas com produção constante, recebeu o objeto de Basbaum com a pergunta: "Você gostaria de participar de uma experiência artística?" A intervenção do grupo, nessa ocasião, foi a simples doação do objeto para o Museu de Arte de Santa Catarina e o envio do recibo para o endereço de Basbaum. Essa foi a discreta ação do grupo: tirar o objeto de funcionamento. O "Vaca Amarela", dessa maneira, entendendo os problemas que a proposição levanta, anulou o seu circuito, pois o que se pretende com o "NBP", ou seja, que ele transite pelos círculos particulares, multiplicando sua lista de autores – e cada assinatura é um valor [!] a mais dado ao objeto – não se realiza nem pode se realizar dentro de um Museu. Enviar o "NBP" para o Museu, portanto, e principalmente para o MASC, é um gesto irônico, já que cria um paradoxo: o grupo realiza a doação do objeto, mas de uma maneira sutilmente dissimulada, o que cria um curto-circuito no próprio ato de envio. Ora, o que acontece com o objeto no acervo do Museu? – Não acontece nada, e não pode acontecer nada, pois NBP torna-se nulo enquanto proposta de circulação. O gesto do "Vaca", dessa maneira, não tem generosidade nenhuma, como escreve Basbaum – é um gesto corrosivo, até perverso. E, aqui, chego ao ponto onde interessa perguntar: quais foram as conseqüências desse gesto do grupo "Vaca Amarela"? Ricardo Basbaum, na ocasião, veio até Santa Catarina para salvar seu caro objeto do Museu – abrindo, assim, uma multiplicidade de contradições.

Basbaum, no e-mail que nos envia, diz que não vê seu objeto como proposta de "competição" ou busca por "créditos artísticos" – embora, é preciso insistir nisso, também não faz questão de suspender o convite para participar da Documenta, em Kassel, justamente com esse "objeto coletivo" – Basbaum diz que "NBP" é uma proposição artística, "um jogo". Ora, se a proposição sugerida a partir de "NBP" é um jogo, a questão é que Basbaum descumpriu as regras do próprio jogo que criou. Pois se o gesto do "Vaca", gesto duchampiano, uma vez que desvia e corrompe as regras do circuito usando de suas próprias regras políticas – e é justamente por isso que considero importante ter enviado o objeto para um Museu – se o gesto do "Vaca" foi um gesto final, o gesto que apaga e destrói qualquer vida simbólica daquele objeto, a pessoa de Basbaum, ao vir até Santa Catarina para salvar seu "NBP", descumpriu as próprias regras de seu jogo. Basbaum perdeu o jogo, e no meio disso reinventou as regras para continuar jogando. E isto é uma grande contradição.

Basbaum, o propositor das regras, dita o jogo da seguinte maneira: "os participantes trabalham pela positividade de seus próprios discursos, sem passar por minha mediação". É importante anotar isto, Basbaum diz que a regra do jogo consiste em não passar por sua mediação. Basbaum diz, em seguida: "existem os elementos do jogo proposto". Pois penso da seguinte maneira: Basbaum perdeu o jogo – pois devemos pensar este jogo como campo de forças, sim: como campo de tensões políticas, pois é só disso que se trata – e depois que viu seu jogo perdido, o objeto doado, a proposição falida, Basbaum usou a autoridade que possui sobre a obra e sobre o circuito que constrói para recuperá-la. Mais ainda: multiplicou o objeto depois disso, transformou um objeto, pois era único, em vários, usando da lógica da reprodutibilidade como controle do risco. E devemos pensar tal gesto, sim, como um controle sobre o risco, como um sistema de autorização e desautorização do risco – e é importante perceber que, aqui, já não temos mais a interatividade, e sim um simulacro dela. Curioso pensar, ainda, a partir do e-mail que Basbaum nos envia, toda uma microfísica do poder construída em torno do sistema que cria – inclusive, com um esquema de "senhas", "relatórios", etc.

A questão é que, principalmente a partir desta situação, fica claro que "NBP" veicula tão e somente a voz de Ricardo Basbaum, sua trajetória enquanto artista e sua autoria. Ricardo Basbaum é aquele que tem autoridade para recuperar o objeto, e aquele que tem autoridade para multiplicá-lo, é aquele que tem o poder sobre a proposição. Portanto, considero difícil sustentar um "não-lugar" da obra, pois o lugar de "NBP" fica muito claro. A proposição feita a partir "NBP", dessa maneira, é e só pode ser uma proposta falsa de coletividade – e toda a força que poderia restar, como pergunto no início deste texto, se dilui nesta constatação. Basbaum continua, sim, sendo o autor do objeto, e sabe de sua autoria. Mais que isso, reivindica tal autoria. Basbaum não sugere questionamento nenhum. E reivindica esta autoria justamente participando da Documenta, de Kassel, e poderia ser de qualquer outro evento, como o do Palácio Cruz e Sousa, com tal objeto assinando. A questão, aqui, não é discutir se tal questão é ética ou não, se Basbaum quer ou não criar um mercado em torno de si, embora fosse também preciso realizar tal pergunta, a partir de um outro eixo de discussão – o que quero é apontar que, se Basbaum pretende suspender a moderna tradição da autoria, e este é o lugar onde se constrói todo seu discurso de defesa e justificação de sua proposta, se é este o lugar onde a proposta quer se sustentar, e se seu projeto consiste em "explicitar o modo operativo da obra de arte", Basbaum só o faz para reafirmá-lo em seguida. Cai na reafirmação do mesmo, naquilo que a proposição parece suspender. Outra contradição.

O autor de "NBP", ainda quis provocar um debate com o "Vaca", depois que teve o objeto recuperado, mas o grupo não compareceu a nenhum dos convites – o que leio como outro gesto de subversão, um segundo golpe, pois a ausência de debate, aqui, não deve ser lida de maneira vulgar, como fuga, e sim como gesto de neutralização, como potência neutra – dispositivo político que pode ser entendido a partir de Roland Barthes: nem sim, nem não, ou mesmo como uma possível fórmula de Bartleby: "preferiria não". Basbaum gostaria de "entender", como diz no debate realizado no MASC, o que o gesto do "Vaca" significou. Certamente, tal ausência de debate é só mais um modo de alargar as contradições de um objeto que não consegue se sustentar fora de qualquer discurso. O gesto do "Vaca Amarela", dessa maneira, e por fim, deve ser tudo que o grupo tem a dizer, pois toca diretamente na multiplicidade de contradições que tal proposição suscita. E continua.

[V.R]

carta publicada no dc

Cultura

Toda discussão política hoje se transforma em cinismo. Não é diferente na entrevista que Edson Machado, diretor da Fundação Catarinense de Cultura, concedeu ao caderno de Variedades do DC na semana passada. Atuando há pelo menos três anos nas discussões culturais do Estado, confesso que não consigo ver a classe artística se mostrando "favorável aos resultados alcançados" pela FCC. Muito pelo contrário, o descontentamento é geral. Os anos de 2005 e 2006 representaram um grande transtorno para os artistas que procuram trabalhar em SC devido à falta de pagamentos de editais, de transparência nos critérios de seleção de projetos e de uma política clara e consistente para o setor.

Victor da Rosa
Escritor - Florianópolis

Ricardo Basbaum responde

Finalmente percebemos que não estamos sozinhos no universo da rede. O texto que escrevi criticando a exposição de Ricardo Basbaum no Museu Histórico de Santa Catarina recebeu 3 comentários bastante pertinentes. O primeiro de Cássio Ferraz, o segundo de Ricardo Basbaum e o terceiro de Sérgio Basbaum. Como queríamos dar o mesmo espaço de resposta ao Ricardo Basbaum (e não deixar sua dedicada resposta apenas nos comentários), pedimos autorização para ele deixar que a publicássemos no blog. Pois bem, segue abaixo seu comentário [F.C.B]

* * *

Ricardo Basbaum disse...
olá Fernando.
Por acaso encontrei seu blog, que não conhecia - achei bacana, achei vivo e atento. A experiência do 'arteporextenso' mostra como o espaço do blog pode ser interessante para o desenvolvimento de um discurso (pós) crítico: é legal como a prosa pode fluir em ritmo próprio, como vocês dois [F.C.B. e V.R.] podem se revezar na dupla autoria, como os assuntos podem ser alinhados segundo os deslocamentos e viagens, como os leitores podem escrever e publicar comentários, etc etc etc. Vou voltar outras vezes e acompanhar as vozes de vocês. Mas queria exatamente comentar o artigo "Basbaum no Palácio Cruz e Sousa", que li com interesse. É lugar comum, bem sei, mas repito: fico feliz em encontrar um texto sobre meu trabalho que proponha alguma discussão - pois em geral (digo, na grande imprensa) isso não ocorre: quando se diz, não se diz direito, e quando se diz se fala do entorno e o assunto mesmo, o mais interessante - a possível polêmica - fica um tanto vaga. Enfim... Repito: gostei de encontrar seu artigo e me interessaram algumas de suas observações. Mas tenho que indicar a você algumas correções, pois você escreve ali que eu disse coisas que de fato não disse, já que na verdade penso de modo completamente diferente - ao contrário até - do que você aponta. São duas coisas principais: uma é em referência à ação do vaca amarela como participante no projeto "Você gostaria de participar de uma experiência artística?". Não é verdade que eu continue "puto com o pessoal do Vaca Amarela", nem é verdade que eu não tenha gostado da intervenção do grupo no MASC - nunca coloquei as coisas dessa maneira. Aproveito então para esclarecer: eu adorei a intervenção do vaca amarela - foi muito precisa e inteligente; a ação do vaca sinalizou um momento de virada do projeto (que eu chamo hoje de "fase 3", conforme indico no diagrama que mostrei na exposição Paralela, em SP - o diagrama está no site so projeto); em conversa com Ze Lacerda e Elisa Noronha, em julho de 2005, em Porto Alegre, indiquei meu interesse pelo que foi feito pelo vaca. Escrevi um texto (não publicado e que em breve estará disponível no site), chamado "relatório de uma visita ao MASC no dia 13 de junho de 2005", em que procuro me posicionar em relação ao episódio (texto enviado por email ao grupo). Ali escrevi: "a ação do grupo vaca amarela revela-se intrigante, ao costurar diversas camadas de sentido e introjetar o potencial de múltiplas possibilidades – as quais não cabe somente a mim, e sim a todos os interessados, investigar; sobretudo ao grupo, sujeito coletivo cuja manifestação é mais do que importante neste episódio. (...) O vaca amarela realizou um gesto (...) que contempla uma aguda observação da cena artística e institucional de Florianópolis e do Brasil, produzindo uma manobra estratégica e aberta de intervenção (cujos desdobramentos podem ser amplamente cultivados e trabalhados)." Se vejo a ação do VA com interesse para meu projeto - pois indica esta tal de 'terceira fase' do projeto, assinalando o momento em que volto a me aproximar das intervenções realizadas, depois de estar um tanto afastado durante a 'fase 2' (em que o objeto começa a circular sem minha intervenção direta, sendo conduzido pelos participantes) -, procuro demonstrar que se a acão do VA foi de fato 'interessante' (e eu acho que foi) é porque ela ultrapassa as dimensões do meu projeto para revelar questões do circuito de arte local e nacional, chamando a atenção para questões concretas que se estendem para além de "Você gostaria de participar de um experiência artística?". Ou seja, este é um traço importante de meu projeto: "Ainda que o objeto físico seja o elemento real e concreto que deflagra os processos e inicia as experiências, na realidade seu papel é trazer para o primeiro plano certos conjuntos invisíveis de linhas e diagramas, relativos a diversos tipos de relações e dados sensoriais, tornando visíveis redes e estruturas de mediação." A ação do VA é significativa porque soube precisamente trazer à superfície limites e contradições de um certo circuito de arte e seu tecido institucional - do qual faz parte, como grupo ou coletivo -, tornando esses limites produtivos: assim está escrito, no relatório mencionado: "o grupo vaca amarela doou o 'ato de doação', não apenas o gesto generoso de relacionar-se com o Museu a partir de um acréscimo ao seu patrimônio mas sobretudo a produção de uma fresta a partir da qual um processo vivo de produção de pensamento é deflagrado no interior do espaço institucional – cabe aos outros ('nós e eles') prosseguir no desdobramento dos fios apontados. Ou seja, o gesto do grupo vaca amarela proporcionou a possibilidade do MASC incorporar em seu acervo o germe de uma dinâmica que tem como seu principal objetivo a produção do elemento vivo a partir do qual novos processos são deflagrados – nos termos concretos dos fluxos de seu funcionamento alinhado à dinâmica dos processos de invenção." Bem, espero que esteja claro que vejo a ação do VA como interessante e importante. Entretanto, um aspecto do grupo deixou-me intrigado e me fez produzir algumas críticas: desde o momento em que a ação foi deflagrada, não tive mais contato com o VA, que nunca mais respondeu às minhas tentativas de contato: procurei entrevistá-los através de vídeo ou email; enviei por email cópia do relatório; forneci senha para utilização do espaço do site para publicação da experiência realizada; convidei-os para participar do debate realizado no MHSC no dia 06/11/06 - nenhum destes gestos foi até agora (cor)respondido. Vejo estas tentativas de contato como gestos para que o próprio grupo afirme as questões que lhe interessa, de modo direto – que de alguma maneira se coloquem em torno das questões por eles deflagradas, certamente mais importantes que o meu projeto. Não há como não perceber no VA um curioso voyeurismo, em que buscam a invisibilidade enquanto sujeitos que de certa forma deixam de lado seus corpos (corpo coletivo) para perversamente habitar o corpo do outro. Penso que isso é também importante e interessante de ser discutido - mas é algo que não se fala... De todo modo, vejo que o VA agiu de modo claro e contundente, deixando importante marca em "Você gostaria de participar de uma experiência artística?" - gostaria, por certo, de ouvir outros ruídos... Mas Fernando, há um outro ponto em seu texto que não faz muito sentido (há uma clara distorção de sua parte): afirmar que "os créditos de toda a história não ficam para o outro, mas sim para o Basbaum. (...) Ou será que os nomes do Vaca Amarela ou mesmo do Cássio Ferraz vão para a Documenta? E se for, vai ser nota de rodapé ou então em algum lugar do site do projeto. Quem vai estar no catálogo, quem vai viajar para a Europa, quem vai engordar o currículo vai ser o Basbaum." Bem, está claro que o projeto "Você gostaria...?" não envolve qualquer 'competição' por 'créditos artísticos' ou 'espaço em catálogo': todos os participantes realizam ações produtivas que se justificam plenamente em si mesmas, afirmando um lugar a partir do qual outros processos podem ser deflagrados - há uma produção real de redes de contato e elaboração de uma discussão que acaba por construir seu próprio fluxo: o website do projeto foi construído de modo a disponibilizar ferramentas de publicação aos participantes, que trabalham pela positividade de seus próprios discursos, sem passar por minha mediação (há os limites do site e os limites do projeto - estes não são escamoteados mas sim trazidos como elementos do jogo proposto) - ou seja, o website está no espaço coletivo da esfera pública informático-mediática. Assim foi concebido e desenvolvido o projeto desde seu início, em 1994 - a atual colaboração com a documenta 12 apenas amplifica a escala da proposta, colocando novos desafios frente a um momento de forte visibilidade.Fernando, escrevi talvez demasiado, mas fiquei empolgado pela possibilidade de conversa com 'arteporextenso' a partir de suas observações... Um abraço, Ricardo
12.12.06

Crítica da crítica: Da caretice institucionalizada - outra vez

O post "Da caretice institucionalizada - de novo", tratava-se de um e-mail que eu havia enviado a Ana Lúcia Vilela que, dentre outras coisas, criticava a postura observada na entrevista de C. Tejo a Néri Pedroso, publicada no site Net Processo. Pois bem, Ana Lúcia Vilela me respondeu a este e-mail de maneira mais crítica ainda. Pedi sua permissão e ela autorizou publicá-la. Segue abaixo [F.C.B]

* * *

De qualquer modo acho que a questão é mais embaixo. Por exemplo quando a Tejo demostra os tramites dela e do artista para transporte do colar de marijuana. ela diz que há a criação de uma tensão gerada nos limites entre o campo da arte e o campo da lei/estado/crime, sei lá mais o quê...

bobagem pura. O que há é uma negociação/agenciamento (e aqui desenvolvo uma crítica a esses termos/procedimentos para a arte) para fazer espetáculo sem correr os devidos riscos. Quando Hélio coloca a turma da mangueira com os parangolés no museu, o faz sem negociação, aí sim há a excitação de contradições. O Hélio tinha relações com bandidos e corria todos os riscos que essas relações impõem. Agora olha a diferença: o cara quer tranportar droga ilegal sem correr risco algum, sendo respaldado pelas instituições artísticas.

o Zizek fala disso, de que na contemporaneidade queremos elimiar os riscos da vida. Ele faz troça dos cafés descafeinados, doces sem açúcar, sexo sem risco como o sexo virtual. par ele isto não constitui uma relação efetiva, mas uma fuga dela. Covardia pura! Neste sentido prefiro até as experifmentações mais formais. Elas são mais sinceras.


[Ana Lúcia Vilela]

pesquisador preguiçoso

thiago momm pereira, crônista do jornal anotícia, perdeu 15 pontos de inteligência com sua crônica de ontem, idéias para a próxima bienal. já começa equivocado, dizendo assim: "fui à bienal na semana passada. inspiradora. não entendi nada, por isso pretendo participar da próxima". ora, se não entendeu nada, deveria estudar mais, procurar se informar, ler algumas coisas, e não querer participar da próxima.

suas sugestões seguintes "para a próxima bienal", que pretendem explicitamente criar alguma graça, só conseguem reafirmar o senso mais comum possível que se faz sobre arte contemporânea, comentários que nem mais conseguem criar irritação na gente. comentários, enfim, que um analista de sistemas (grosseiro) faria - porque um analista de sistemas lúcido e inteligente pode reconhecer que, da mesma maneira que um artista não tem o direito de falar disparates sobre análise de sistemas, pois não entende do assunto, evidente, não sabe como funcionam os mecanismos, etc., um analista de sistemas também não tem o direito de falar disparates sobre arte contemporânea, ou literatura, ou filosofia.

quer dizer, direito até tem. mas ... assim, também nos dá o pleno direito de dizer, sem qualquer problema, sem qualquer culpa e sem hesitação, que o comentário está plenamente equivocado, está reafirmando o senso-comum, e nos dá também o direito de dizer, por fim, que tal comentário não é digno de quem possui um espaço privilegiado no jornal e um mínimo de pensamento crítico sobre as coisas.

thiago momm, dessa maneira, perde 15 pontos de sua inteligência - os créditos que havia conquistado em crônicas como sociologia da balada - e entra para a comunidade dos "pesquisadores preguiçosos".

[V. R]

Da caretice institucionalizada - de novo

Publico o e-mail que enviei para Ana Lúcia Vilela porque esclarece alguns pontos de vista que estamos pensando. A mensagem surgiu porque eu lhe enviei em anexo as críticas de J. Monachesi e F. Cypriano, publicadas na Folha de São Paulo, llustrada, de 02/12/2006. Além disso, também enviei a entrevista que a jornalista Néri Pedroso realizou para o site Net Processo (www.netprocesso.art.br) com a curadora Cristiana Tejo.

Ana,
segue em anexo as críticas de Juliana Monachesi e do Fabio Cypriano à 27ª Bienal de SP. Apesar de a Juliana ser mais severa com a mostra, o Fabio coloca algumas coisas bem mais pertinentes (mesmo que seja para dizer que ficou satisfeito com a exposição). De qualquer forma, ele fez pensar naquele trabalho de Laura Lima – na relação explícita que tem com os Parangolés, mas que na verdade deixa o público apenas desfilar com as roupas naquele curto-espaço-de-boutique que a gente entrava (com direito a fila e tudo). A crítica é ácida de Laura Lima ou será que ela não é exatamente aquela quem transformou Oiticica naquela bobagem? Agora tem uma coisa: quando o Hélio entrava com os Parangolés, ele despertava um certo desconforto do público do museu, que não conseguia decodificar aquilo como arte (num primeiro momento). Era uma invasão – no sentido literal. O trabalho da Laura Lima, no entanto, faz exatamente o oposto: as pessoas sabem se portar diante de roupas em exposição, sabem prová-las, sabem olhar-se no espelho. Sabem e gostam, por fim, de tirar fotos com elas (mais um souvenir da Bienal, para dizer aos amigos: estive lá). É exatamente o oposto da invasão, da intervenção. Esse é o problema do trabalho (que o afasta completamente daquela história do Oiticica), porque sua obviedade é tão aparente/transparente como o próprio material de que as roupas são feitas. Outra questão é pensar o trabalho do Superflex (Guaraná Power) e do Marcelo Cidade (bloqueador de celulares) que não puderam se efetivar nos limites institucionalizados da Bienal. Mesmo que tenha virado o prato predileto da imprensa é preciso pensar seriamente isso. Aquele trabalho do vídeo com a Elke Maravilha, que vimos na Mostra Fiat Brasil, era, na verdade, para que a Elke levasse o povo para ver a Bienal. Dizem (Adriana Barreto e Bruna Mansani, que participaram da mostra me contaram) que a sra. Lisette Lagnado não permitiu. Acho essa censura pior do que as relatadas pela imprensa (Superflex e Marcelo Cidade).
Mando também em anexo, a entrevista que a Néri Pedroso fez com a Cristiana Tejo. Achei-a simplesmente brochante. Ela é a expressão mais bem acabada dessa institucionalização que estás percebendo nas artes: uma super especializada que começa a entender mais os problemas da instituição do que a querer pensar as artes para além dela. Em verdade, foi um verdadeiro asco ler aquela fala bem comportada. Os caras não conseguem mais vibrar com arte, não há mais sedução, envolvimento (apesar de reinvidicarem o corpo como campo de trabalho...). É um eterno papo sobre as relações entre artistas e instituições (esse é o perigo de tua tese, cair neste debate infernal e infindável que, mesmo que você vá criticar, acabe por afirmar, lembre-se do mestre Henrique Pereira Oliveira). Ninguém consegue bater o pé marcando o ritmo involuntariamente porque simplesmente abandonou-se a vontade de dançar. Estou cada vez mais de acordo com o Victor: é preciso bater e dizer os nomes, porque a caretice está generalizada (como já percebeu o Cássio Ferraz).


{F.C.B]

Mostra Fiat Brasil

Uma pequena grande mostra. Com problemas na montagem, com trabalhos realmente ruins, com uma variedade democrática demais de discursos. Toda a parte de arte e tecnologia também é muito banal.
De qualquer forma, uma experiência e tanto. Ao contrário da Bienal, que faz você se perder, se atordoar, pela quantidade de trabalhos, a Fiat Brasil realizou um recorte bastante corajoso por parte do grupo de curadores: não mostrar tendências da arte contemporânea brasileira (trabalho inoportuno que críticos e curadores acreditam fazer a cada exposição, lembra-me a coisa do Prometeu), mas sim linhas de ação atuais no campo artístico múltiplo que é o Brasil.
Destaque total para Marta Neves, com “As 12 Tarefas”, vídeo em que mostra Elke Maravilha – este ser assustador e maravilhoso – buscando gente das ruas de São Paulo para ir ao museu (tomei conhecimento, posteriormente, que a idéia era levar o pessoal para visitar a Bienal, mas a sra. Lisette Lagnado recusou-se terminantemente: ótimo, é isso mesmo, vivendo e aprendendo a como viver juntos...). Ao levá-los ao museu, Elke não realiza o obtuso trabalho da maioria das ações educativas dos museus que tenta prover explicações razoáveis para os trabalhos. Ao contrário, começa a perguntar para cada um, seu signo e, a partir daí, começa a narrar (retoma a coisa da narrativa oral, maravilhosa!) o que está previsto para ele. Pois bem, aquele que a ouve falar sobre seu signo, também se expressa, trazendo suas experiências para o museu não a partir do pretexto artístico, mas sim de sua própria vida. Este vídeo deveria ser a base para qualquer trabalho digno de arte e educação que quisesse se arriscar por diferentes veredas.
Ainda: três fotografias de Fabiana Wielewicki. Eu as havia visto uma reprodução de jornal e não havia dado muita atenção. É impossível, no entanto, pensar neste trabalho sem a clareza do acabamento que ela o realizou. Trabalha com uma questão que, particularmente, tem me interessado muito ultimamente (até mesmo em função da curadoria que eu e a Ana Lúcia Vilela realizamos no Museu Hassis, a exposição “Horizontais”): a paisagem. No entanto, ela constrói uma cena em que a paisagem é interferida por uma outra paisagem, onde os prédios da paisagem real são substituídos por imagens-clichês enquadradas de paisagens ideais. Um jogo de bate e rebate em que a própria fotografia (com o corpo da artista em cena) também formula/simula uma paisagem.
Daniel Trench e Felipe Cohen também exercitam a paisagem, desta vez em vídeo, num trabalho maravilhoso, onde surge a linha do horizonte que separa o mar do... pano branco que se agita ao vento no lugar do céu.
Trabalhos excitantes: Henrique Oliveira, com seus tapumes, arrebatam qualquer narrativa. É aquilo dali e encerrar discursos ali é pura erudição.
O trabalho assinado por Vulgo (MG) me fez lembrar um Traplev (mais sofisticado e com mais dinheiro no bolso): projeto de instituição artística móvel, com direito a jardim no telhado dos carros que realizarão a itinerância.
Bruno Faria tira um sarro generalizado com um vídeo de leilão de obras de arte. Ao lado, vê-se a tela absurda que ele comprou.
Havia ainda dois vídeos particularmente interessantes que não anotei os nomes: uma mulher em um balanço que se movimenta sobre um lago; uma fumaça roxa que se esparsa em um campo.
Made in Florianópolis, vê-se ainda Raquel Stolf (com seu grilo) e Adriana Barreto com Bruna Mansani, que trabalham com uma proposta de interação entre público e artistas e trabalhos: sortearam um felizardo que viajou com elas por um dia na cidade do Brasil que ele escolhesse (o idiota escolheu o Rio de Janeiro...). Com isso, ele passou a também a assinar a obra. Em uma prateleira, fotos que contam o périplo do grupo: ali se vê toda uma narrativa.


[F.C.B]