Ainda sobre a falência

A falência é questão central das artes no Brasil. Em Santa Catarina, nem se fale. Vimos isso ontem na discussão sobre o cinema (e o teatro, afinal vários que ali estavam também compõem o circuito teatral). Artistas são geniais ao reclamar. Produtores e burocratas também. Eu também. Achamos a lógica de tudo. Quem é amigo de quem, quem não cumpre seu dever. Quem está diretamente prejudicado. É uma merda. Olha lá: os bares se enchem com os burburinhos das sacanagens, das covardias, da falta de bom senso das secretarias e fundações de cultura, do ministério federal. Enquanto isso, artistas fazem projetos, projetos, projetos e mais projetos. Alegam não ter dinheiro para executá-lo. Ok, certos projetos precisam realmente de algum recurso – basta pensar em um Richard Serra ou mesmo em um Eduardo Frota – no entanto, outros tantos, precisam de coragem e desprendimento, exatamente coisas que faltam no espírito contemporâneo. No entanto, quando algum museu de peso solicita uma doação ou permuta de um trabalho para um artista, aí se dá um jeito de produzir, de criar, de trabalhar. Pagam o SEDEX de envio ao museu, inclusive. [F.C.B]

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TRAPLEV É IMPORTANTE

Nesse sentido, considero o trabalho de Traplev importante. Ele faz desta apatia, deste marasmo, desta falta de expressão (por vezes até facial dos artistas, por isso, os atores me agradam mais na convivência, pelo menos eles sabem se divertir com seus próprios rostos) motivo de seu trabalho. Claro que isso pode ser uma faca de dois gumes: à medida que ele se envolve cada vez mais com estas questões ele terá uma cruzada pela frente: se a situação melhorar, ele terá que produzir seus trabalhos artísticos e a coisa do reclame sobre a política cultural ficará fora de lugar. Para onde irá seu trabalho? [F.C.B]

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ROBERTO FREITAS TAMBÉM

Outro artista fundamental é o Roberto Freitas. Transformou sua casa em galeria. Para além de sua insatisfação com o sistema atual das artes locais, há uma proposta efetiva. E isso é importante. Sua casa está geográfica-estrategicamente localizada: ao lado do CEART/UDESC. É claro que o problema é o de sempre: até onde vai a reverberação da ARCO? Será que ela não seria mera extensão do CEART? Será que há espaço para diálogo com o outro, com o diferente ali?

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MUSEU NÃO É COISA PRA POBRE

Por sinal, o problema que apontei para a ARCO também se refere aos museus. E isso independe de estar próximo ou não do centro de produção de artes das cidades. O que ocorre é que não há espaço para o outro, para o diferente. Não conheço nenhum programa de incentivo à classe baixa aos museus. Os programas educativos fazem o seguinte: encher os museus de crianças, que podem ser educadas, que vêm em turmas, que gostam ou não gostam dos trabalhos sem maiores problemas e que multiplicam o número de visitante/mês, justificando socialmente a estrutura. A verdade é que os museus, pelo menos em Fpolis – mas, na verdade, também em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, que é o que eu conheço – são destinados a um determinado público e não faz o mínimo esforço para chegar ao que seria diferente deste público. Mesmo que as estatísticas mostrem uma drástica diminuição do público dos museus, nada é feito no sentido de pensar isso. Eu tenho uma explicação para isso: o declínio econômico brasileiro pós-ditadura levou milhares, ou melhor, milhões a adentrar nas classes “média baixa” e na própria classe dita “baixa”. Automaticamente, o público se tornou rarefeito. Mas os museus, mudaram? Por mais que se argumente que surgiram programas e agendas culturais, uma interdisciplinaridade, etc. elas são, em sua maioria, destinadas para o mesmo público. Como melhorar a apreensão e vivência deste público nos museus? Como pagar os artistas? Como melhorar as reservas técnicas? Como tornar os acervos seguros? E, particularmente, no que diz respeito a esta última questão, há um preconceito dramático nas direções e corpos técnicos dos museus. Não se leva o pobre para o museu porque se tem medo que eles roubem (ou venham a roubar) peças do museu. Ou então que toquem nas obras, que as derrubem, enfim, que não sejam civilizados. É isso aí. Pobre = ladrão. É isso aí. Não estou dizendo nenhuma besteira. Esse preconceito que atravessou o século XX, vindo do XIX, chega forte e vivo ao XXI, misturado com um quê de profissionalismo e tecnicismo. Isso é foda. Por que não levar funk para o museu? Por que sempre são as mesmas orquestras eruditas a se apresentarem nos museus? Por que ao invés de fazer ação educativa junto às escolas, não ir aos conselhos comunitários? E ficamos sempre na mesma bolha que se, pelo menos, estivesse inchando, seria melhor. Mas o pior, no entanto, é que ela cada vez mais murcha, murcha, murcha... [F.C.B]

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MAURÍCIO MUNIZ TEM(^) MUSA(S)

Ao Chicão (in memorian)

Por isso gosto de Maurício Muniz. Largou a medicina (que lhe traria dinheiro), a arquitetura (que lhe traria algum dinheiro) e se lançou à arte (que não lhe traz dinheiro algum). No entanto, vive. É feliz. Adaptou-se, criou laços, aprendeu a viver por si. Vive de e com arte. Seu dia é arte. Quando quer produz. E não fica produzindo feito um louco, como uma indústria. Trabalha quando lhe vem idéias, vontade e musa. Salve Maurício.
p.s.: Carlos Asp também pertence a esta etnia de artistas.
[F.C.B]

pela corrupção da falência


em florianópolis, estamos acompanhando um movimento de manutenção da falência. praticamente toda a discussão da arte realizada na cidade, as representações na imprensa, hoje, seja na literatura, nas artes visuais, no cinema ou em qualquer outro lugar, gira em torno de como fazer parte desta falência, como entrar nela, e não de como corrompê-la. formadores de opinião que participam há mais tempo da discussão em torno de cultura se interessam por esta manutenção, evidente, pois é a falência que os torna notáveis; e os mais novos aparecem neste rastro, tentando catar os restos que ficam pelo caminho, e reivindicando o lugar da falência. dificilmente as perguntas “como construir outros caminhos? cavar outros buracos?” aparecem nessas discussões. não, preferimos a falência, ficamos com ela.

pude acompanhar uma conversa em torno do filme matou o cinema e foi ao governador, realizada no museu hassis, na sexta-feira. em certo momento da conversa, as pessoas que estavam discutindo (cineastas, produtores e críticos, mais novos e mais velhos) chegaram à conclusão de que 1) se os editais em santa catarina tendem a contemplar somente os projetos que promovam a “cor local” – machado de assis diria: ainda nisso? – 2) então a única possibilidade é o desenvolvimento de projetos que promovam, dessa maneira, a “cor local”, “que falem do daqui”. esta é, no final das contas, a grande e – por que não dizer? – triste conclusão a que se chega. depois daí, a discussão não avança mais, não se consegue nunca desatar esse nó, escapar dele. ficamos, portanto, no caminho óbvio, a saber - o da manutenção da falência.

sim, acredito que a realização do filme matou o cinema e foi ao governador foi uma importante iniciativa política, “de organização e resistência”, como as pessoas têm dito – e acho que o único esquecimento de luis felipe soares, em seu texto, foi não ter mencionado isso, colocando matou o cinema... ao lado de as procuradas, por exemplo – mas não vejo os rombos e o alcance político que o filme acredita ter feito. mais que isso, não vislumbro, com o filme, qualquer avanço na discussão de como construir outro cinema no estado, ou outra literatura, teatro, enfim – talvez não seja essa a discussão mais imediata, urgente, necessária? a proposição que o filme sugere, no final das contas, não seria a mesma? queremos fazer parte da falência. queremos o nosso pedaço nisso tudo. eis a fórmula.

de fato, assim, preferiria não.

[V.R]


Tudo está em seu devido lugar

Música aqui _________________ teatro acolá
____________________________________________ artes visuais lá

De completo acordo, Victor. Trata-se, de qualquer forma, daquela imensa caretice que lhe falei há algum tempo. Os artistas e quem estuda artes, em sua grande maioria, são caretas. Ou então, seres de outro mundo. "Sistema das artes" quer dizer infinitamente mais do que "favela", "política", "fome", assuntos do tipo. Não podem nem ouvir falar em movimento estudantil, não comparecem em outras áreas mesmo que das artes e querem receber seus salários única e exclusivamente com seus trabalhos de arte. Quando não, exigem bolsas para estudar. É essa a grande bandeira: viver da arte, o que quer dizer, criar um mercado para seus trabalhos e escritos. Em Florianópolis, sonham com galerias sofisticadas, um Thomas Cohn, um Edu (da Vermelho) para salvar a lavoura. Resmungam pelos bares por não haver agitação cultural... não têm onde mostrar seus visuais... Cordeiros.

[F.C.B]

em florianópolis, temos um público especializado. funciona da seguinte maneira: pessoas que fazem teatro só assistem a espetáculos de teatro, e pessoas que fazem artes visuais só comparecem a exposições de artes visuais – acreditam, por exemplo, que artes visuais e teatro são coisas muito diferentes. não sei se em outros lugares funciona assim, gostaria de saber. dias desses eu convidei um colega para ir não sei aonde, e ele respondeu: ah! não é da minha área. sim, pois ainda estamos pensando em áreas, fronteiras, compartimentos. então é assim: quando vamos a um espetáculo de teatro ou a um show de música, vemos todas as pessoas que estavam no espetáculo de teatro ou no show de música da semana passada, respectivamente. e raramente mais uma ou outra pessoa desconhecida - que geralmente é amigo do artista, familiar ou turista desocupado. os circuitos são precisamente os mesmos, não existe qualquer contaminação. os cortes de cabelo também são os mesmos – em cada circuito. preferiria um curto-circuito. dá até um cansaço.

[V.R]
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"[..] um livro deve ser o machado que quebra o mar de gelo em nós"
- kafka.

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O fantástico (em) Diego de los Campos


Diego de los Campos está muito bem, obrigado. Desenha, cria objetos, coloca-os em movimento, trabalha em vídeo, com sons. Sua produção atinge quantidade e qualidade invejáveis. Seu trabalho é contínuo e quase obsessivo. Quem conhece “Desenhos de um real” sabe que há um profundo engajamento do artista em seu processo artístico.
Este projeto ocorre da seguinte maneira: o artista produz diariamente dezenas de desenhos sobre papel, depositando-os em uma pasta que circula no dia a dia junto a sua bolsa. Qualquer ocasião – um café, uma cerveja, uma reunião – é perfeita para que ele saque sua pasta e mostre seus trabalhos. Vende-os a R$ 1,00, cada. Ele próprio descreve: “Para vender os desenhos, o artista sempre levará consigo uma pasta contendo não menos que 160 desenhos. Sem hesitação o trabalhador oferecerá, a qualquer pessoa, desenhos por um real”.
“Como pode, um real apenas?”, talvez seja a primeira reação ao se deparar com a proposta. Compra-se um, dois ou mesmo cinqüenta desenhos de uma vez. Paga-se em moedas, cédulas ou mesmo cheque. Para quem já conhece o projeto, basta encontrá-lo para perguntar como vai o projeto, para ser surpreendido por mais uma centena de novos trabalhos. A execução deste projeto é engenhosa: o artista, em verdade, conseguiu organizar todo um micro-mercado de artes em torno dele. Considera-se um trabalhador qualquer, antes de tudo. É humilde ao oferecer seus desenhos por um real apenas, menos do que se gasta para se engraxar um sapato. Contudo, habilmente, Diego de los Campos vai, por um lado, penetrando no fechado circuito artístico e, por outro, mobilizando o acanhado mercado da arte local.
Sua opção é clara: viver e sobreviver da arte. Para um estrangeiro – que está em Florianópolis desde 1999, provindo do Uruguai – este objetivo deve ser ainda mais difícil. Para tanto, leciona desenho nas oficinas de arte do Centro Integrado de Cultura (CIC), ministra curso de animação no SENAC. Diego é um dos poucos artistas que vivem da arte e isso é um fator relevante em sua trajetória. A estratégia de “Desenhos de um real” está de acordo com este objetivo pessoal. Escreve: “Cada desenho deve ser feito em menos de 3 minutos. Atendendo assim o seguinte cálculo: em uma hora o artista consegue fazer 20 desenhos. Em oito horas 160 desenhos. Trabalhando 25 dias por mês o artista alcança seu objetivo de fazer 4000 desenhos. Vendendo cada desenho a um real e conseguindo vender todos eles, o trabalhador ganha um salário digníssimo de 4000 mil reais”.
Recentemente, com a produção de Hércules Goulart Martins, o artista montou o projeto “Desenhos de um real” em uma exposição que pode ser vista até o dia 28 de setembro no espaço da Associação de Artistas Plásticos de Santa Catarina, que fica no Teatro Armação, Praça XV de Novembro, Centro de Florianópolis.
Já no trabalho em exposição em “1 Triz”, mostra com curadoria de Adriana Barreto e Julia Amaral que se encontra no Museu Hassis, destaca-se a questão do movimento, que é uma das questões centrais de seu trabalho. Isso está explícito neste trabalho intitulado “Devaneio”. Trata-se de uma cadeira levemente tombada para trás que, no entanto, não cai. Parece desafiar a gravidade. Diego acoplou um dispositivo mecânico e um fio de nylon que faz com que a cadeira fique em constante movimento. Assemelha-se a uma cadeira de balanço, que balança sem ninguém estar sentado. Mesmo que alguém quisesse, não poderia fazê-lo já que ela não possui assento. Diego desloca o objeto de seu espaço cotidiano, retira-lhe a utilidade e o coloca em constante movimento. Para completar, a cadeira produz um ruído singular e também constante.
Por sinal, os trabalhos de Diego de los Campos, em sua grande maioria, dialogam com o fantasmagórico. É extremamente interessante ver seu trabalho na Ilha de Santa Catarina que, a partir de uma herança mal assimilada de Franklin Cascaes, possui toda uma produção artística afetada pelo universo mítico. A bruxa tornou-se elemento comum de um de todo um imaginário que se remete ao mito e a magia como característica local. A noção, desenvolvida na famosa tese de Adalice Araújo de 1977 que fermentou e amalgamou esta visão artística, desenvolveu-se não só no discurso artístico, mas também do artesanato. Tal consenso aliado a um mesmo discurso utilizado na propaganda turística-comercial de Florianópolis, culminou com o reconhecido sinônimo “Ilha da Magia”.
Franklin Cascaes, no entanto, não tratou apenas de bruxas e “causos” do além. Sua obra é uma profunda pesquisa visual, uma verdadeira catalogação do modo de vida local. Cascaes foi um verdadeiro antropólogo que ao invés da caneta, utilizava-se de imagens. No entanto, o que foi apropriado de sua obra foi a porção dita “bruxólica”. Não por acaso, sua última exposição, realizada na Galeria de Artes da Universidade Federal de Santa Catarina, possuía uma bruxa enorme montada no lado de fora da Galeria a receber os visitantes. Bruxa virou sinônimo de Cascaes (Bruxa = Cascaes) e isso não é terrível para a compreensão do conjunto de seu trabalho. O mesmo ocorreu com Ernesto Meyer Filho, com os galos (Galo = Meyer Filho) que, no entanto, não refletem as diversas nuances do artista.
É extremamente saudável, portanto, assistirmos aos trabalhos de Diego de los Campos. Não afetado por esta problemática do fantástico na arte local, ele consegue propor novas narrativas e visualidades que arejam o discurso artístico. Mas, para além da questão fantasmática há uma grande elaboração mental. O próprio Diego entende seu trabalho como ilustração de idéias. Pensamentos que são como música. Sim, música, que enquanto não é realizada, torna-se um ritmo dentro da cabeça, indo e voltando, indo e voltando até encontrar sua materialização ou então o seu ocaso.

Sobre os artistas que estão no Contramão de minha casa


Ontem abrimos a exposição “Jogo do Bicho”, aqui no meu apartamento. As pessoas estranham: como uma exposição na casa de uma pessoa? Pois é, esta é a proposta do ESPAÇO CONTRAMÃO que está em sua oitava edição. A idéia é justamente deslocar o espaço expositivo, fazendo exposições migrantes, cada uma diferente da outra. O(s) dono(s) da casa é que são os curadores e organizam toda a programação da exposição, incluindo convites, vernissage, visitação, etc. As idealizadoras do projeto – Adriana Barreto, Bruna Mansani e Tâmara Willerding – prestam toda assessoria necessária. Há sempre algo novo para se ver e sentir no CONTRAMÃO.

Todo o processo tem sido maravilhoso para nós. Foi ótimo contar com os cinco artistas escolhidos para a exposição. Eles entraram em nossas vidas: na minha, de minha esposa (Ana Paula Bressan) e de minha gata (Emília Felina). O primeiro artista a realizar seu trabalho foi Diego Rayck. Ele chegou em minha casa apenas com um saco de carvão. Sim, um saco de carvão para churrasco. Deixei ele trabalhando a tarde inteira no meu apartamento já que eu tinha compromissos fora. Ao chegar em casa, encontrei em minha parede um ser maravilhoso, enorme, que ocupa agora boa parte do meu escritório. Ele desenhou diretamente sobre a parede. O ser surgiu de seu universo onírico: fã dos jogos de RPG, ele criava todo mundo para jogar, como um universo paralelo, com seres, cidades, flora, fauna, tudo imaginado e desenhado por ele próprio. Operava como um pequeno deus, criando e ordenando o seu mundo. E isso tem relação direta com o trabalho artístico. Pois bem, foi entregue ao Diego uma parede inteira para ele dar forma a este mundo em minha casa. Com um senso magistral do espaço, ele pensou na perspectiva de quem entra no escritório (onde se encontra esta parede) e desenhou um ser enorme que por um lado intimida e por outro mostra certa fragilidade já que está nu e parece surpreendido ao nos ver entrando no quarto. O desenho a carvão funciona como uma espécie de portal, com o ser saindo de seu mundo (o universo do artista, a cabeça de Diego Rayck) e entrando no meu (o meu apartamento, mas também de quem vê a exposição).

Depois chegou Maurício Muniz. Antigo amigo, veio para também desenhar sobre a parede o projeto “Casa de uma parede só”. Por diversas vezes havíamos falado desta casa que, em verdade, é seu antigo sonho. Há mais de vinte anos ele desenha construí-la. Eu nunca havia conseguido compreendê-la inteiramente. Ele fazia pequenos desenhos em papéis, guardanapos, mas sempre parciais. Numa manhã, ele veio ao meu apartamento e com um giz pastel começou a desenhar sobre minha parede da sala. Ao mesmo tempo em que ele desenhava eu o filmava. Em verdade, seu trabalho foi ilustrativo. Eu perguntando como funcionaria a casa, como seria construída, a disposição dos móveis e ele me mostrando tudo isso visualmente. Por fim, eu adotei seu sonho e também quero construí-la.

Maurício foi o grande amigo a acompanhar todo o processo de exposição. Ajudou em toda a montagem. Foi particularmente importante para ajudar a pensar o modo como montaríamos o trabalho de Luiz Henrique Schwanke. A amiga Néri Pedroso me emprestou sete linguarudos de Schwanke para a exposição. O caso de Schwanke, no entanto, era um dos que mais me preocupava. Já falecido, eu me questionava muito sobre como iria montá-lo já que eu teria que levar em conta o modo como iria apresentá-lo mas também como iria manter boas condições de conservação. Pensei em montá-lo no chão, para inverter um pouco a lógica expositiva e, afinal, eu havia gostado muito de ver as coisas do Schwanke na horizontal, no chão (não diretamente, mas dentro de caixas) quando estive na casa de Maria Regina Schwanke, irmã do artista e que hoje guarda seu acervo enquanto o Museu de Arte Contemporânea de Joinville não fica pronto. Foi muito legal poder conhecer parte do acervo do Schwanke em papel lá em Joinville: pude ver a diversidade e a profundidade de seu trabalho. Há muito ainda a se mostrar de Schwanke. Pois bem, ao montar os trabalhos pensei nisto, mas também tentei equacionar com a questão da conservação: o chão foi forrado com papel neutro para depois receber uma camada de jornal (a idéia das folhas de jornal vieram justamente porque Schwanke também desenha seus linguarudos sobre folhas de jornal). Os sete linguarudos foram distribuídos sobre o jornal (cada um com folhas de papel neutro atrás para não entrar em contato direto com o jornal que é extremamente ácido e, portanto, nocivo à obra). Na seqüência, colocamos um vidro para protegê-lo.

Diego de los Campos chegou enquanto Maurício Muniz ainda estava em meu apartamento. Foi legal os dois se conhecerem já que ambos trabalham com vídeo e fazem animações. Nos divertimos muito juntos entre chicaras de café. Diego chegou com seu objeto que consiste em um mecanismo que trabalha com bolinhas de vidro batendo sobre dois recipientes com água. A cada toque da bolinha, produz-se um som, parecido com um sino. Há toda uma questão de ritmo ainda neste trabalho. É muito difícil descrevê-lo verbalmente. Diego trouxe ainda uma foto maravilhosa, uma paisagem noturna, com uma árvore e com nuvens parecendo ondas. Para finalizar aquilo que ele chamou de “tríptico”, ele trouxe cerca de quinze garrafas de água de 500ml. Durante o vernissage, pediu para as pessoas beberem meio litro de água. Ao final, Diego pegou as garrafas, fez um pequeno furo nelas com um estilete e as transformou a numa espécie de corneta já que a soprando, extraí-se um som parecido a um trombone ou algo do tipo.

O último dos últimos foi Carlos Asp. Chegou atrasado, vindo de viagem. Montou a exposição enquanto ocorria o vernissage. Pouco importa. E isso é legal no ESPAÇO CONTRAMÃO. Sem as formalidades requisitadas pelos museus e galerias, caso um artista atrase não há grandes problemas. Asp chegou as três horas da tarde – a exposição foi aberta ao meio-dia – almoçou, conversou com todo mundo para só depois montar, tranqüilamente, seu trabalho. Eu admiro o Asp. Sua humildade é imensa. Sempre anda com seus trabalhos em suas pastas e sacolas. Retira-os e mostra-os a todo mundo, explicando-os com a maior tranqüilidade e de maneira didática. E foi maravilhoso poder ver seus trabalhos recentes. Asp tem um ritmo que é todo seu e que não é o ritmo do trabalho burocrático, do trabalho acadêmico, muito menos de qualquer outro trabalho. É o seu ritmo, desacelerado, mas que consegue manter uma produção maravilhosa. Asp comeu, bebeu, conversou, dormiu, acordou, saiu e todo o tempo eu ficava admirando aquela figura, com uma simplicidade e com uma jovialidade invejável. Salve Asp!

Renata Patrão em individual na ARCO

Dourado. Precioso. Luz. Quadrados.

Em pequenos pedaços quadrados de papel, todos dourados, Renata Patrão sugere a (re)construção dos arcos da Galeria. Explica-se: a sala onde está seu trabalho possuía dois arcos que serviam como portas/passagens. Para montar o espaço expositivo, fechou-se tais arcos. A intervenção, no entanto, sempre é visível. Como ferida que não cicatriza, a arquitetura da casa insiste em se mostrar. Mesmo camadas e camadas de massa corrida não conseguem fazê-la desaparecer.
Renata Patrão chegou com uma caixinha cheia de papéis de cigarro dourados. Com cola e os dedos, lançou-se justamente às marcas que faziam lembrar do arco. Começou a redesenhar com seus quadradinhos dourados a forma de arco. Não chega a completá-los: apenas sugere.
O poema dadaísta de Mabel que apresenta a exposição, diz: “Revelar o óbvio apenas pelo prazer raro dourado (...) Santa ousadia falar sobre o que não se viu”. A escrita de Mabel dá conta daquilo que é a grande poesia do trabalho de Renata Patrão.
O trabalho é pictórico e ao mesmo tempo arqueológico. Por acréscimo, Renata Patrão chega ao subtraído. Adicionando quadrados e dourados, faz lembrar o que já não há ali: um arco.

Contramão pousa no meu apartamento


Jogo do Bicho
Espaço Contramão

A oitava edição do Espaço Contramão, desta vez ocorrerá em São José (SC), no meu apartamento, com a exposição “Jogo do Bicho”. Participam os artistas Carlos Asp, Diego Rayck, Diego de los Campos, Luiz Henrique Schwanke e Maurício Muniz. A curadoria ficou ao encargo de Emília Felina. De 23 de setembro a 14 de outubro de 2006.






Contramão é um espaço móvel que migra através de residências, propondo intervenções artísticas dentro do ambiente doméstico. Por concepção, o ambiente se molda e se adapta de acordo com o espaço de ocupação do momento e a configuração das pessoas envolvidas, ou seja, a cada mês ou exposição, o evento acontece numa casa diferente, tendo seu dono como curador, que delimitará espaço, artista(s), período e horário de visitação.
A idéia para “Jogo do Bicho”, que acontecerá no apartamento de Ana Paula Bressan, Fernando C. Boppré & Emília Felina, surgiu de uma inquietação. Posto que a curadoria caberia aos donos da casa, começou-se a questionar quais os critérios para se chamar esse ou aquele artista.
Isso porque nestes casos o que está em jogo é antes uma relação afetiva do que qualquer outro critério estético ou mesmo temático. A partir disto, Ana Paula e Fernando decidiram repassar a curadoria e seus critérios para quem realmente é a dona da casa: a gata Emília.
Após uma semana inteira de conversas e discussões contundentes, o trio chegou a conclusão que a melhor solução seria a seguinte: após um dia inteiro de jejum, a gata seria servida com suas bolinhas de ração CAT SHOW, como de costume. Desta vez, no entanto, as bolinhas seriam distribuídas no chão e embaixo de cada uma haveria um pequeno pedaço de papel com o nome de um artista. Foram dispostas diversas bolinhas com vários nomes de artistas. As cinco primeiras bolinhas que ela comeu corresponderia aos cinco artistas que seriam convidados para a exposição.
E assim foi feito. O critério afetivo foi substituído pelo instinto da Emília. Até uma gata pode fazer a curadoria, certo? Afinal, a vontade de matar a fome é um critério muito mais justo, não?
CARLOS ASP, DIEGO DE LOS CAMPOS, DIEGO RAYCK, LUIZ HENRIQUE SCWANKE (in memorian) e MAURÍCIO MUNIZ foram os escolhidos. Foram encarregados de ocupar o apartamento do trio e trazerem um agrado para a Emília. Afora, a ironia da proposta, os cinco nomes escolhidos são importantes artistas e possuem uma produção extremamente significativa. Emília foi astuta na escolha. Especial agradecimento aos quatro artistas pelo aceite imediato e no caso de Luiz Henrique Schwanke, faz-se especial agradecimento a Néri Pedroso pelo empréstimo das obras e ao Instituto Luiz Henrique Schwanke de Joinville/SC por ter apresentado parte do acervo do artista a Fernando C. Boppré.
A exposição abrirá no dia 23 de setembro de 2006, das 12hs até 24hs. O endereço é a rua Charles Ferrari, 609/204, no bairro Kobrasol, em São José. Poderá ser vista e sentida até o dia 14 de outubro, bastando ligar para o telefone (48) 9912-4879 para agendar a visita.

Painas


Abaixo segue a troca de e-mails que mantive com a artista Maria Araújo entre 16 e 25 de agosto de 2006. Ela surgiu a partir de minha ida a abertura de sua exposição na galeria ARCO, de Florianópolis, em 11 de agosto. A exposição, chamada “Flanêur” esteve de 11 a 18 de agosto no espaço e faz parte do projeto “DOBRAS”, da mesma galeria. A publicação foi autorizada por Maria Araújo e desde já agradeço a gentileza.

Fernando escreve em 16/08/2006

Oi Maria, estou ainda pensando em sua exposição e, desculpe minha ignorância, teperguntarei algumas coisas: 1) Há paineiras aqui em Florianópolis? 2) Impressão minha ou você nos deu (ao público) apenas um pouco, o mínimo das paineiras, para sentirmos mais a falta do que a presença, para estarmos, de alguma forma, lidando com a ausência diante de teu trabalho. Enfim, falar em uma paisagem ausente é um grande erro, uma viagem de quem observa ou você acha pertinente? 3) Caso tiveres algo mais explicativo a colocar sobre este teu trabalho, por favor o faça, isso porque o texto da Karina é quase que complementar ao teu trabalho, não sendo uma crítica propriamente dita, parece-me, mais precisamente, um elemento que participa do teu trabalho. Desculpa incomodá-la, att.
Fernando C. Boppré.
p.s.: Em anexo algumas fotos que tirei no local.

Maria responde em 17/08/2006

Olá Fernando! Você não me incomoda de jeito nenhum!!!!! Fico feliz por suscitar algo a ser questionado. Principalmente pela sua primeira pergunta... 1) Há paineiras aqui em Florianópolis? R: Sim. Muitas e estão todas com os frutos amadurecidos soltando suaspainas e espalhando-as pela cidade. Na rótula que entra na rua Madre Benvenuta, há algumas paineiras. No dia da exposição o chão estava coberto de painas. Creio que agora já estejam terminando. Na saída da ponte em direção ao continente há uma imensa. Nomorro atrás do Hospital de Caridade...dentre outras. 2) Impressão minha ou você nos deu (ao público) apenas um pouco, o mínimo da paineira, para sentirmos mais a falta do que a presença, para estarmos, de alguma forma, lidando com a ausência diante de teu trabalho. Enfim, falar em uma paisagem ausente é um grande erro, uma viagem de quem observa ou você acha pertinente? R: Não foi somente você que teve essa impressão! É que mostrei o processo de algo que ocorreu. Vou explicar por partes: 1- tingi algumas painas com pigmentos naturais;2- tingi outras painas com pigmentos de aquarela; Não fiquei muito satisfeita com o resultado, pois a paina natural guarda um brilho que se perdia principalmente nas tingidas com aquarela. Conheci o trabalho do artista plástico Andy Goldsworthy (umas bolas de neve incrustadas com coisas da natureza). Então tive a idéia de congelar as painas em duas vasilhas com formato de meia lua. Depois fotografei todo o processo de degelo. Ao montarmos a exposição decidimos que todo esse processo ficaria de fora, pois somente com o material que tínhamos já conseguiríamos acionar, no espectador, a paisagem externa. As paineiras com frutos maduros soltando suas painas. Portanto a paisagem não está ausente. O que ocorre é que se torna necessária ação do artista para o espectador percebê-la. 3 - Quanto ao texto da Karina também achei bastante enigmático, mas gosto de pensá-lo como um elemento que participa do trabalho e faz o espectador pensar (instiga-o). No projeto "Dobras", cada texto pode ser um trabalho em si. E aquelas foram impressões que ficaram na Karina quando apresentei o trabalho alguns meses antes da exposição. Na ocasião, também mostrei os guardanapos onde colocava as painas para secar. Estes absorviam grande quantidade das cores das painas. (Creio que as impressões da Karina dizem mais respeito a esses guardanapos). Na conversa com o artista falei sobre o fato de não expor algumas coisas, pois o espaço não comportava. Ao montarmos a exposição fomos eliminando algumas coisas e, inclusive o livro do processo de degelo ficou na mesa no lado de fora, justamente para não "sufocar" o conteúdo do que havia na pequena sala. Creio numa conversa ao vivo isso tudo poderia ficar mais claro, mas espero que tenha tirado algumas das suas dúvidas. Se achares necessário mais algumas informações é só me passares novo e-mail com suas questões! Muito satisfeita por sua atenção. Maria:)

Fernando escreve em 20/08/2006

Oi Maria, ótimo! É ótimo podermos conversar. Compreendi o processo. Contudo perceba o problema que estava colocado: eu fui à exposição, curti o aspecto visual, mas fiquei me perguntando o que ligava as coisas, quais conceitos ou problema estavas trabalhando. Não consegui achar o fio da meada, mesmo porque eu não sabia o que era "paina" - você me disse no dia, somente aí comecei a atentar para a coisa, mas caso eu não soubesse que você era a artista, eu passaria batido por este ponto vital da sua proposta. Portanto, observe que a minha apreensão estética foi apenas parcial no dia. Se eu tivesse alguns dados, como estes que você me passou, (e provavelmente os demais visitantes que assim como eu chegaram sem estar ligados ao teu universo ou mesmo da arte contemporânea como um todo), provavelmente teria mais possibilidades de jogar junto ao teu trabalho, de me aproximar da tua proposta. Mas perceba novamente: isso é uma decisão sua, talvez você quisesse esse alheamento, mas isso tem que estar claro. Algo que resolveria a questão seria um texto para a exposição, não aquele da Karina pois, concordo contigo, ele participa da obra e isso é ótimo. Mas um texto que apresentasse você e a obra - poderia ser de sua autoria - que estivesse na parede ou em qualquer outro lugar do espaço expositivo. São considerações abertas, Maria, pois vi em seu trabalho um processo interessante e tão enigmático quanto o texto da Karina, que me cativou. Não por acaso estou até agora - quase uma semana depois da exposição - pensando e escrevendo sobre ela. Fica o abraço,
Fernando.

Maria responde em 24/08/2006

Olá Fernando!
Vou remeter novamente o vídeo [enviado por Maria a Fernando em um dos e-mails iniciais], mas lembre-se ele não foi editado. Ele é só para você perceber o meu encantamento por essa árvore que, nessa época do ano, derrama essas "pequenas nuvens", a bailar pela cidade, com as sementes. Também pensei em escrever um texto, mas com tantas coisas na universidade e a proposta de somente dois artigos de colegas serem editados, me pareceu suficiente. Por fim achei que expliquei de mais, o trabalho, na conversa com o artista. Sei que você não estava presente e é justamente por esse motivo que acho interessante esse bate-papo. O que as pessoas captaram e/ ou decidiram investigar após tomar contato com o material que mostrei na exposição é que é relevante. Todas as considerações são possíveis e tudo é somatório. Não achas? Vou anexar também o convite para a próxima exposição na ARCO que será amanhã, dia 25/08/06. Espero que o instigue tanto quanto a minha! Tente aparecer. Beijos
Maria:)

Fernando escreve em 25/08/2006

Com relação ao bate-papo, acho que a exposição deve funcionar independente dele. Pense que em uma exposição de maior porte, os trabalhos ficarão um ou dois meses em um espaço e as pessoas sequer irão conhecer a sua voz. Por sinal, não gosto dos bate-papos com artistas porque eles geralmente explicam demais – premidos pela necessidade de falar, algo que não faz parte do discurso artístico, pelo menos na maioria das obras.
Quanto as paineiras, vi (percebi) uma linda, logo na cabeceira da Ponte Colombo Salles, ela está ótima, parecem algodões. Abraço e até mais,
Fernando.

Fernando escreve em 03/09/2006

Oi Maria. Eu havia lhe falado de minha idéia de publicar nossa troca de e-mails no blog ARTE POR EXTENSO. Em anexo segue o texto que quero publicar e lhe peço a devida autorização para isso. Colocarei também algumas fotos das obras. Abraço, Fernando.

Maria escreve em 05/09/2006

Olá Fernando! Reli todo o nosso bate-papo e acho que vai ser interessante para ler. Portanto está totalmente autorizado!! Abraço, Maria.