No arquivo e na exposição

Ao adentrar em uma exposição, o historiador tem uma sensação de liberdade sem igual. O espaço expositivo é bastante diferente – num primeiro momento – daquele em que ordinariamente ele circula. Ao chegar ao arquivo ou à biblioteca, por exemplo, encontra seu material de trabalho previamente organizado, serializado, enfim, numa ordem do discurso já engendrada e que, implicitamente, oferece significados.

Ao contrário, uma exposição de arte contemporânea quase sempre apresenta uma ordem outra. É claro que, em pouco tempo, é possível perceber que um trabalho de arte contemporâneo pode ser ainda mais demarcado que um arquivo. Mesmo assim, um encantamento - ainda que passageiro.

Abril

Uma cruz até o monte. Ou: mãos para estrangular. Como quem escreve pela primeira vez; não sabe grafar, faz parecer fala infantil, coisa imprecisa. E balbucia: poste, avião, casa. O fogo lá.

O amor passado*

Não é possível abolir por completo aquilo que uma vez uniu duas pessoas: por mais que se esforce, restarão reminiscências. A idéia de "laços" a juntar dois destinos talvez não seja suficiente, já que, de modo geral, um laço pode facilmente ser desfeito ou, em última instância, cortado. Talvez, mais apropriado fosse, pensar em um cabo submarino: mesmo que um dia não se torne mais necessário, ele continuará lá embaixo, nas profundezas, insistindo em ligar as partes, ainda que não tenha mais função prática alguma. Ao decidir conviver sob um mesmo teto, um casal adota o presente e o futuro como tempos verbais da existência. Quando renunciam a isso e optam pela separação, ambos mergulham no pretérito de tal modo que é preciso resignificar tudo e todos ao redor. Separar-se de um grande amor talvez seja uma das experiências mais drásticas da contemporaneidade, que, contudo, cada vez mais é banalizada, afinal, é preciso logo se recuperar e voltar ao mercado - do consumo, do trabalho, do sexo. Com isso, o casamento e a separação tornaram-se apenas mais uma das tantas experiências a que o sujeito tem que se submeter nos tempos de hoje. Não há mais rito algum, nenhuma passagem possível.

O Passado, último filme de Héctor Babenco, aproxima-se de uma outra possibilidade de experiência sensível do amor. De modo profundo, expõe como o pretérito assola e atua sobre o presente. Discute a impossibilidade de se esquecer por completo. Mesmo porque o passado assinala - seja com marcas, seja com ausências - a existência. Desde o início do filme, os personagens centrais - Rimini (Gael García Bernal) e Sofia (Anália Couceyro) - se deparam com o passado: ambos estão em uma festa, já decididos a se separar, e são surpreendidos por um vídeo com momentos felizes do seu casamento. Desconcertados, anunciam o fim da relação a uma grande amiga. Esta, no entanto, considerava que Sofia iria lhe contar que estava grávida. Não, Sofia não esperava criança alguma: mas naquele mesmo momento, tanto ela quanto Rimini tornaram-se grávidos (carregados, pesados) do passado. Uma criança direcionaria o tempo para o futuro; a separação, contudo, os engravidou do pretérito.


Sofia é uma espécie de trauma para Rimini. Uma forma quase patológica do passado e de amor. Que sempre retorna, independente de sua própria vontade. As narrativas sobre ela nunca deixam de lhe chegar aos ouvidos: seja pelo pai, seja pelo ex-namorado da própria Sofia. Ela está em tudo: no ar que respira. A sutileza do filme não permite emitir julgamentos morais rasteiros. Sofia não é, simplesmente, alguém de quem Rimini não consegue se livrar, um estorvo ou um tormento em sua vida. Não há bem nem mal, pelo contrário, há uma força imperativa que move Sofia sempre em direção a Rimini. A todo instante, seja pelo acaso, seja por insistência, assiste-se ao seu retorno à vida de Rimini. Por vezes, com ternura (como no encontro em um hospital), em outras violentamente (como no caso do seqüestro do filho de Rimini com sua nova esposa, Carmen). Em ambos os casos, contudo, era preciso lidar com o passado, algo que Rimini simplesmente não fez. Por inabilidade ou impaciência, ele se entregou à vida prática sem tempo algum para processar as rupturas.


Rimini começa a perder a memória. O francês e o inglês, idiomas com os quais trabalhava como tradutor, pouco a pouco são esquecidos. Uma delicada metáfora: um tradutor que se esquece dos idiomas. A partir de então, cada vez mais ele perde a capacidade não apenas de traduzir as línguas, mas também de interpretar a realidade. Em pouco tempo, desprende-se da vida real e se isola em um apartamento. As pessoas não se separam, elas se abandonam, diz Sofia. Após isso, é preciso que cada um saiba cuidar de si ou, então, decidir conviver com os seus mortos. Sofia é abandonada por Rimini, que é abandonado por Carmen. Por fim, Rimini abandona a si próprio. Decide morrer em vida. Em uma reviravolta, ele acaba sendo salvo pelo esporte. A mente que a tudo esquecia é deixada em segundo plano em nome de um corpo que pode reproduzir, sem problemas, os exercícios do condicionamento físico. A única saída para Rimini estava em si próprio, em seu corpo adormecido.

Há, ainda, um problema que não se resolve e que perpassa todo o filme. Após a separação, mesmo a contragosto, resta a Sofia cuidar do maior patrimônio do casal: as fotografias. Ela insiste para que Rimini a ajude a separá-las. No entanto, ele se esquiva da tarefa, com uma impressionante definição do pretérito: "O passado é um bloco que não se pode dividir". E, assim, coube a Sofia carregar este "bloco" ao longo dos anos que se seguiriam. Em contrapartida, Rimini entregou um bloco inteiro nas mãos de Sofia. Desligou-se de seu passado rápido demais, delegando a ela suas lembranças. A seu modo, ela soube processar seus fantasmas: elaborou um tratamento entre a psicologia e a auto-ajuda para mulheres que foram abandonadas pelos maridos. O problema de Sofia é amar demais e, de alguma forma, ela consegue compartilhar isso com outras pessoas, criando um coletivo que se auto-sustenta, ainda que precariamente. Ao contrário, Rimini nega-se a pensar sobre o passado e, cada vez mais, isola-se de tudo.


"Essa é a mulher da minha vida", costuma-se afirmar após um longo tempo de relacionamento. No entanto, não é possível afirmar que existe "a mulher" ou "o homem" para toda uma vida, como ordinariamente se diz. No entanto, a existência pode colocar em nosso caminho uma pessoa cuja intensidade e presença acaba por transformá-la na mais importante de nossa vida. Sofia não é a mulher da vida de Rimini. Contudo, sua presença é tão marcante que, mesmo sem decidir, ela acaba por se tornar "a mulher" da vida de Rimini. É sobre seu retrato que ele cheira cocaína. É ali, naquele rosto repleto de memórias, que ele encontra a potência para trabalhar, criar e sobreviver. Rimini sofre de reminiscências. Sofia também. Cada qual a seu modo: aquele no silêncio e na perdição da vida contemporânea. Aquela na resignificação extrema do relacionamento, na dramatização dos atos de amor. Sofia e Rimini se amam porque a existência assim o quis. E mesmo separados, continuam a viver uma história de amor. E nem mesmo a falta de memória, o "alzheimer precoce" de Rimini, conseguiu apagar essa marca que, pouco a pouco, transformou-se em ausência.

* Publicado no Caderno Cultura do Diário Catarinense, em 03 de maio de 2008.

Montagem aberta, na ARCO

Uma exposição as escuras. Terminado o processo de criação e montagem, dois artistas (Cláudio Trindade e Roberto Freitas) decidem como um relâmpago promover uma abertura. Sem muitos convites, sem livro de presença, sem coquetel, sem toda a parafernália que torna tudo tão careta no circuito da arte contemporânea. Esta é a exposição “Montagem aberta”, na ARCO, em Florianópolis.

Roberto Freitas no "Pretexto-pintura"

Usualmente ele lida com fantasmas. Sobreposição de hélices de sistemas de ventilação para computadores (coolers) e lupas conjugadas a uma fonte de luz. Ele constrói imagens assombradas no interior do mal assombrado corredor do Palácio Cruz e Sousa. Assiste-se - entre os fios elétricos dispostos sem quaisquer preocupação, a não ser a de demonstrar o excesso e o próprio modo como as coisas se passam – a um mecanismo que acaba por projetar uma imagem na parede. Eis que surge a pintura em movimento, a partir da escultura tresloucada – com direito ao jogo entre o claro e o escuro. Sem ele, não haveria imagem. Afinal, a luz depara-se com anteparos materiais (lupas, ventoinhas) e acaba servindo para criar zonas de sombras. E é no interior destas zonas sombreadas que se passa o fantástico, o assombrado: duas hélices se superpõem e na sua intersecção percebe-se a diferença de velocidades. Sutil, Roberto Freitas.

Sem título*

"Figura de traje noturno", Rodrigo Cunha, 2007-2008.

Uma das obras da exposição "Temas para uma realidade", na Fundação BADESC, em Florianópolis/SC. De 13 de março a 23 de maio de 2008.


1. O assombro do olhar cruzado: O caráter posado reveste os quadros de Rodrigo Cunha com alguns sintomas da fotografia. As personagens parecem aguardar que o “pintor-fotógrafo” finalize a representação. Que acione o clique. Inertes, olham fixamente para fora do quadro. Ou seja, seus olhos parecem querer fixar quem os observa: as lentes de uma câmera ou, em última instância, um olhar lançado diretamente ao próprio pintor e ao espectador. Uma lógica especular: no mesmo instante em que se assiste às personagens de Rodrigo Cunha, também se é visto por eles.

2. Após a queda: Em “Duas figuras numa poltrona”, um homem e uma mulher sentados, resistem sobre um chão inclinado. Por trás da aparente estabilidade das coisas – uma poltrona, uma mesa, uma garrafa, um relógio – surge uma gravidade que quase os faz escorregar para dentro do quadro. Se assim o fosse, ambos cairiam bem diante de nossos pés, deixando-nos ainda mais perplexos. O mundano contaminar-se-ia com o universo pictórico. As personagens, após a queda, levantar-se-iam e lançariam o olhar sobre nós, que cá estamos a observar a obra. E só assim teríamos a certeza de que eles são mais reais do que a sala, o casarão e a cidade.

3. O mesmo: Ainda que as coisas pareçam perfeitamente diferenciadas elas se confundem. O mesmo tom de pele das figuras está espalhado pelo ambiente: chão, paredes e corpos, tudo parece se coadunar.

4. Temas para uma realidade: No interior do limite trabalha Rodrigo Cunha: seu repertório é diminuto, o mundo aparece a partir de pouquíssimos elementos. No entanto, no mesmo gesto em que faz repetir os sofás, as paredes, as mesinhas e mesmo os enquadramentos, multiplica-se a possibilidade do real. Afinal, que temas para realidade apresenta seus quadros? Quais realidades querem construir suas representações? O título da exposição, por si só, já instala o público no universo da pintura-limite de Rodrigo Cunha.

5. Saída de emergência: O espaço da solidão é invadido pela paisagem. E é por aqueles rasgos na tela, que funcionam como saídas de emergência dos ambientes herméticos em que estão mergulhados as estranhas personagens, que surge uma cidade. Não uma cidade qualquer. Mas uma Florianópolis. A cidade exaustivamente representada na tradição da pintura local mas que pelas mãos de Rodrigo Cunha ganha outra força. Afinal, ele não se esforça por representar o local, por caracterizá-lo de todo modo. Ele não quer ser um novo Martinho de Haro, um outro Franklin Cascaes. Não quer vender seus quadros aos turistas embasbacados com qualquer referência marinha. O movimento de Rodrigo Cunha parte de dentro para fora: é do interior de seus ambientes construídos que se visualiza pedaços da cidade. Provoca, com isso, um inusitado contato entre seu universo fechado, todo-próprio, que responde a regras pictóricas muito específicas, e a cidade de Florianópolis, que responde, ela própria também, a clichês específicos de representação. Ainda assim, seus personagens continuam com as mesmas expressões, não ganham nenhuma “cor local”. Cunha é forte, seus personagens também.

6. Astigmatismo: Ao fundo da sala de exposições e isolada em uma das paredes, a tela “Interior com vista para baía”, num primeiro momento, causa uma ilusão naquele que a observa. Sobretudo, se o observador possuir alguma deficiência visual. No quadro surge um retângulo branco, na vertical, que se confunde com a própria parede em que a tela está exposta. É como se a parede invadisse a própria obra. Ou o contrário. Em verdade, trata-se de uma impressão astigmática. De todo o modo, é sempre bom agregar o acaso a um pensamento. Ao aproximar-se, percebe-se que o quadrado branco compõe a tela, sendo uma janela do recinto onde se encontra a personagem. E daquela janela surge um espaço urbano. E, após a referência inequívoca da Ponte Hercílio Luz, sabemos tratar-se de Florianópolis. É assim, astigmática e por intrusão que surge a cidade.

7. Sem título: Seres eternamente deslocados. Numa espera sem fim. O que se passou? O que virá? Talvez não haja tempo possível para as personagens de Rodrigo Cunha.

* Publicado no Caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 12 de abril de 2008.

Aspeando

Mestre Carlos Asp em ação! Seu mais recente trabalho pode ser visto no http://br.youtube.com/watch?v=1rvqFYfrC84
Trata-se da exposição "Desenho no Plural", uma coletiva com os artistas Nathália Garcia, James Zortéa, Letícia Costa Gomes, Gerson Reichert, Nina Moraes, Tchello d´Barros e Carlos Asp. De 05 a 26 de março na Galeria de Arte do DMAE, em Porto Alegre.

Le Beau Mariage (Um Casamento Perfeito), de Eric Rohmer

Sabine decide casar. Avec quelq´un. Edmond quer ficar só. Filme feito desta impossibilidade – e de outras. Sabine mora em Mans, no entanto, estuda em Paris. Tem seus livros em Paris, mas outra parte de sua vida permance em Mans (trabalho, família, o quarto de criança). Queixa-se de querer algo que, contudo, nunca está perto dela (um livro que quer em Mans está em Paris e vice-versa). Não se sente confortável em lugar algum: em Mans ou Paris. Demite-se do trabalho. Relação problemática com o mundo apesar de saber o que quer para si. Edmond, ao contrário, está por completo estabelecido no mundo. É advogado. Defende as pessoas. Sabine as acusa. De incompreensão, de egoísmo, de hipocrisia. Ela estuda artes. Mas quer casar e ser dona de casa. E ter um filho. Uma comédia das contradições.

john coltrane: the father and the son an the holy ghost

um furacão parte do interior pulmonar bipartido ensandecido da respiração não faz sobreviver senão interrupção programada dor do efizema do cancêr a respiração é sopro o sax é barro um universo de coisas se agita no ar.

http://ari13.imeem.com/music/OenhfS-g/john_coltrane_the_father_and_the_son_and_the_holy_ghost/

Onetti: nem mesmo um vício que possa me fazer feliz

Devorando J.C. Onetti. Tipo de literatura que sempre atrai. Personagem escritor – como Onetti, como eu próprio (?). Habita grande cidade e sente-se irremediavelmente só. E infeliz. O livro se chama “A Vida Breve”: “Gertrudis e o trabalho imundo e o medo de perdê-lo, as contas atrasadas e a certeza inesquecível de que não há em lugar algum uma mulher, um amigo, uma casa, um livro, nem mesmo um vício, que possa me fazer feliz”. (p. 59). A certeza do infortúnio de estar no mundo. Da impossibilidade de outra coisa a não ser a própria consciência sobre isso.