O que é que a Tapera tem
* Tapera é um bairro periférico localizado no Sul da Ilha de Santa Catarina.
Asp-barroco, barroco-Asp (anotações corridas sobre o trabalho do meu amigo Carlos Asp)
Raimundo Camillo
- "É loteria", respondeu.
- "Posso tirar uma foto?", pedi a ele.
- "O Bispo do 10?", questionou-me sendo que o número era uma referência ao Pavilhão 10, onde Bispo residiu.
- "Sim".
- "Como ele era?"
- "Ele era preto".
Raimundo foi descoberto por Wilson Lázaro, curador do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea em uma de suas andanças junto a Ricardo Aquino (diretor do Museu), pela Colônia Juliano Moreira. Num dos pavilhões, encontraram pequenos quadros afixados nas paredes pelos funcionários para decorar o local. Lázaro interessou-se pelo trabalho e encontrou o pequeno Raimundo a trabalhar em pequenos pedaços de papel, colorindo e criando formas minúsculas que criam um todo como uma espécie de bilhete da loteria. Por sinal, ele afirma ter recebido dois carros na loteria. Até hoje continua a jogar, fazendo números infindáveis em pedaços de papel que lhe caem nas
Nota: Raimundo Camillo participou da exposição "+3", realizada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, no ano de 2005. Wilson Lázaro o posicionou ao lado de Bispo do Rosário e José Rufino, outro interno da Colônia Juliano Moreira. Nenhum deles participou de qualquer terapia ocupacional tal qual a realizada por Nise da Silveira no Engenho de Dentro, modelo que ainda hoje é utilizado em diversas instituições de saúde mental. Eles se auto-clinicavam pela arte. Um desejo próprio que os fazia escorrer para fora, em boa medida, da insanidade. O lamentável em relação a essa exposição é que Raimundo Camillo foi impedido por funcionários da Colônia Juliano Moreira de ir à abertura da exposição: a desculpa era que ele não possuía documentos (situação que aponta a incompetência do sistema de saúde mental que sequer tentou conferir-lhe o primeiro passo para a cidadania que é a carteira de identidade.
Notícias do Pavilhão 10
Bianca Tomaselli: a grade e o objeto
A grade. O traço reto que se cruza com outro reto traço. Surgem inúmeros quadriláteros. É assim, indefinidamente, que a estrutura da grade se repete no trabalho de Bianca Tomaselli. É a partir do pleno domínio do mesmo – a grade – e do espaço em que ele será instalado que surge a experiência do mínimo capaz de arrebatar. Em sua exposição na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, no ano de 2005, ele se deu pela conjunção entre piso e parede. Por toda a extensão das paredes da sala onde se encontrava, a artista desenhou uma rede de quadriláteros apenas com rejunte branco. Com isso, fez coincidir a grade retangular pré-existente – a saber, a do piso da sala – com aquela instalada a partir de seu trabalho. Tomaselli domina o espaço como poucos. E isso no interior de um regime escasso de materiais, de exigências. O desenho. Ao adotar o rejunte como base material para o tracejar, ela abstrai os demais elementos que, ordinariamente, se apresentam junto ao rejunte: não há piso, azulejo, nem mesmo o chão. O rejunte se torna grafite nas mãos da desenhista Bianca Tomaselli. A relação com o desenho e com a pintura é inevitável: afinal, como um pintor, ela mistura o rejunte com água até chegar a uma tonalidade que lhe agrada. E, como o desenhista, tem que se esforçar por manter o traço. É na linha que se percebe a hesitação da mão da desenhista. É impressionante descobrir que Bianca Tomaselli é dona de um desenho virtuoso (foi monitora, por alguns semestres, da disciplina de desenho, do curso de Artes Visuais do Centro de Artes da UDESC). No entanto, agora, seu traço está reduzido a um mínimo necessário sem que isso, contudo, acarrete a perda da presença daquela que desenha. No tracejar, observa-se sua pulsação, seu corpo, sua força. É ali que ela se encontra: nas tremulações de uma linha reta afeita a poética do mínimo.
O ferro. É como se a artista mostrasse as entranhas da modernidade: afinal, é através da grade, das redes que se ergueu, literalmente, as estruturas da construção civil e que configurou a espacialidade daquilo que entendemos por vida moderna. As casas, os hospitais, as escolas, as prisões, enfim, toda uma infinidade de edificações é sustentada por redes de ferro. É por entre essa malha férrea entranhada no concreto que atravessam os barcos, os aviões e os automóveis. Por isso, Sigfried Giedion, em anotação feita por Walter Benjamin em suas “Passagens”, descreveu a experiência estética fundamental da modernidade como aquela depositada nas pernas de aço da Torre Eiffel: “através da fina rede de ferro estendida no ar, passa o fluxo das coisas”. É essa experiência provinda da arquitetura que Tomaselli faz transbordar em seu trabalho.
O objeto. Em outro momento, na exposição Projeto Pretexto, em Florianópolis, no ano de 2006, Tomaselli instalou um objeto no interior do Museu Histórico de Santa Catarina. A estrutura da grade que até então a artista depositava sobre as paredes dos museus e galerias, agora, torna-se um enorme objeto. Dispendioso, difícil de deslocar, algo que, literalmente, atravanca o espaço do museu. Sabe-se que, certa vez, por conta de um coquitel realizado pelo Instituto Histórico-Geográfico de Santa Catarina, sediado no Museu Histórico, foi preciso remover e colocar o trabalho de Bianca Tomaselli em um canto, para que ele não atrapalhasse a cerimônia e possibilitasse a livre circulação dos convidados pelo salão. Além de se apropriar do espaço, a artista tornou o que até então era o suporte para colocar os trabalhos, ou seja, a parede falsa móvel do Museu Histórico de Santa Catarina, no seu próprio trabalho. Trouxe para o primeiro plano a presença do suporte renegando uma suposta parcialidade deste elemento no espaço expositivo. Com isso, criou um objeto de portabilidade monstruosa, que não poderá ser adquirido ele mesmo por qualquer museu local já que não é possível de ser armazenado em uma reserva técnica sem ocupar um espaço desproporcional e causar problemas operacionais. Mesmo quando está exposto, o objeto provoca ruídos e, afinal, o gesto de se deslocar/esconder o trabalho de Tomaselli, tal qual ocorreu por ocasião do referido coquitel no Museu Histórico, demonstra que ele transita entre a instalação e o objeto, deixando para o público e/ou para a instituição que o abriga a função de descobri-lo ou escondê-lo.
Cláudio Trindade: outros possíveis
Os objetos de Cláudio Trindade possuem uma estranha simplicidade, muitas vezes baseada em seu caráter auto-referencial. Como estes ralos metálicos, soldados e fechados sobre si mesmos, em forma de cubo. Por ali, o que escorrer não terá destino, a não ser, o improvável.
Uma lupa dentro do desenho de uma lupa sobre uma superfície (clichê). É como se a lupa-desenho surgisse da ampliação proporcionada pela lupa-objeto. A lupa: esse fascinante objeto que dá a ver outros objetos, ampliando a escala das coisas no mesmo ato que reduz o campo da visão. É essa lupa que grava a si própria em uma matriz de zinco.
O objeto ignorado transita em uma zona de exceção. É que o desconhecimento do nome, da função, da origem, enfim, das informações que configuram a natureza e a utilidade de um objeto possibilitam, por vezes, uma concessão improvável à imaginação que pode, livremente, inventar outros sentidos, atribuir novas filiações. Para quem não veleja e observa, ao acaso, na parede de uma garagem, um leme pendurado, pode muito bem tomá-lo por um alicate de unhas para dinossauro. Ao contrário, quando se sabe exatamente para o que serve cada coisa - um leme é um leme, serve para velejar e ponto final -, limita-se os significados possíveis. O fato de não se saber o que é um leme e observá-lo à distância acaba por possibilitar um uso e uma significação não demarcada pela historicidade: os velejadores sabem e reconhecem que objetos com aquela forma e com o nome de “leme” servem para navegar e esse é o seu melhor uso registrado na história.
É, portanto, no campo da ignorância do objeto que pode se instaurar a profanação de sua historicidade, retira-lo da instância ao qual seu uso está consagrado. Para tanto, alguns artistas, lançam mão de um expediente que reúne, num mesmo gesto, a inocência da criança a uma espécie de radicalidade conceitual. Ambos os procedimentos são regidos pelo desejo de profanar que tem por fim devolver as coisas ao mundo, retomá-las de uma outra maneira, descobrindo outros possíveis no campo do lúdico, da estética e assim por diante. Apropriar-se dos objetos dados para deles extrair um outro discurso possível, uma outra sintaxe. Em boa medida, é este o procedimento de Cláudio Trindade que sabe exatamente a função de cada objeto que lhe cai na mão. Seu ponto de partida é, deste modo, uma extrema lucidez que, no entanto, parece ser ignorada ou subvertida à medida que os descompõem, os ironiza. Com isso, surgem rachaduras no edifício da até então sólida semântica, ocasionando novas combinações possíveis: metros começam a medir a si próprios perdendo a referência em relação ao mundo. Abdicam de sua função em nome de uma outra injunção estética.
No arquivo e na exposição
Ao adentrar em uma exposição, o historiador tem uma sensação de liberdade sem igual. O espaço expositivo é bastante diferente – num primeiro momento – daquele em que ordinariamente ele circula. Ao chegar ao arquivo ou à biblioteca, por exemplo, encontra seu material de trabalho previamente organizado, serializado, enfim, numa ordem do discurso já engendrada e que, implicitamente, oferece significados.
Ao contrário, uma exposição de arte contemporânea quase sempre apresenta uma ordem outra. É claro que, em pouco tempo, é possível perceber que um trabalho de arte contemporâneo pode ser ainda mais demarcado que um arquivo. Mesmo assim, um encantamento - ainda que passageiro.
Abril
O amor passado*
Não é possível abolir por completo aquilo que uma vez uniu duas pessoas: por mais que se esforce, restarão reminiscências. A idéia de "laços" a juntar dois destinos talvez não seja suficiente, já que, de modo geral, um laço pode facilmente ser desfeito ou, em última instância, cortado. Talvez, mais apropriado fosse, pensar em um cabo submarino: mesmo que um dia não se torne mais necessário, ele continuará lá embaixo, nas profundezas, insistindo em ligar as partes, ainda que não tenha mais função prática alguma. Ao decidir conviver sob um mesmo teto, um casal adota o presente e o futuro como tempos verbais da existência. Quando renunciam a isso e optam pela separação, ambos mergulham no pretérito de tal modo que é preciso resignificar tudo e todos ao redor. Separar-se de um grande amor talvez seja uma das experiências mais drásticas da contemporaneidade, que, contudo, cada vez mais é banalizada, afinal, é preciso logo se recuperar e voltar ao mercado - do consumo, do trabalho, do sexo. Com isso, o casamento e a separação tornaram-se apenas mais uma das tantas experiências a que o sujeito tem que se submeter nos tempos de hoje. Não há mais rito algum, nenhuma passagem possível. O Passado, último filme de Héctor Babenco, aproxima-se de uma outra possibilidade de experiência sensível do amor. De modo profundo, expõe como o pretérito assola e atua sobre o presente. Discute a impossibilidade de se esquecer por completo. Mesmo porque o passado assinala - seja com marcas, seja com ausências - a existência. Desde o início do filme, os personagens centrais - Rimini (Gael García Bernal) e Sofia (Anália Couceyro) - se deparam com o passado: ambos estão em uma festa, já decididos a se separar, e são surpreendidos por um vídeo com momentos felizes do seu casamento. Desconcertados, anunciam o fim da relação a uma grande amiga. Esta, no entanto, considerava que Sofia iria lhe contar que estava grávida. Não, Sofia não esperava criança alguma: mas naquele mesmo momento, tanto ela quanto Rimini tornaram-se grávidos (carregados, pesados) do passado. Uma criança direcionaria o tempo para o futuro; a separação, contudo, os engravidou do pretérito.
Sofia é uma espécie de trauma para Rimini. Uma forma quase patológica do passado e de amor. Que sempre retorna, independente de sua própria vontade. As narrativas sobre ela nunca deixam de lhe chegar aos ouvidos: seja pelo pai, seja pelo ex-namorado da própria Sofia. Ela está em tudo: no ar que respira. A sutileza do filme não permite emitir julgamentos morais rasteiros. Sofia não é, simplesmente, alguém de quem Rimini não consegue se livrar, um estorvo ou um tormento em sua vida. Não há bem nem mal, pelo contrário, há uma força imperativa que move Sofia sempre em direção a Rimini. A todo instante, seja pelo acaso, seja por insistência, assiste-se ao seu retorno à vida de Rimini. Por vezes, com ternura (como no encontro em um hospital), em outras violentamente (como no caso do seqüestro do filho de Rimini com sua nova esposa, Carmen). Em ambos os casos, contudo, era preciso lidar com o passado, algo que Rimini simplesmente não fez. Por inabilidade ou impaciência, ele se entregou à vida prática sem tempo algum para processar as rupturas.
Rimini começa a perder a memória. O francês e o inglês, idiomas com os quais trabalhava como tradutor, pouco a pouco são esquecidos. Uma delicada metáfora: um tradutor que se esquece dos idiomas. A partir de então, cada vez mais ele perde a capacidade não apenas de traduzir as línguas, mas também de interpretar a realidade. Em pouco tempo, desprende-se da vida real e se isola em um apartamento. As pessoas não se separam, elas se abandonam, diz Sofia. Após isso, é preciso que cada um saiba cuidar de si ou, então, decidir conviver com os seus mortos. Sofia é abandonada por Rimini, que é abandonado por Carmen. Por fim, Rimini abandona a si próprio. Decide morrer em vida. Em uma reviravolta, ele acaba sendo salvo pelo esporte. A mente que a tudo esquecia é deixada em segundo plano em nome de um corpo que pode reproduzir, sem problemas, os exercícios do condicionamento físico. A única saída para Rimini estava em si próprio, em seu corpo adormecido.
Há, ainda, um problema que não se resolve e que perpassa todo o filme. Após a separação, mesmo a contragosto, resta a Sofia cuidar do maior patrimônio do casal: as fotografias. Ela insiste para que Rimini a ajude a separá-las. No entanto, ele se esquiva da tarefa, com uma impressionante definição do pretérito: "O passado é um bloco que não se pode dividir". E, assim, coube a Sofia carregar este "bloco" ao longo dos anos que se seguiriam. Em contrapartida, Rimini entregou um bloco inteiro nas mãos de Sofia. Desligou-se de seu passado rápido demais, delegando a ela suas lembranças. A seu modo, ela soube processar seus fantasmas: elaborou um tratamento entre a psicologia e a auto-ajuda para mulheres que foram abandonadas pelos maridos. O problema de Sofia é amar demais e, de alguma forma, ela consegue compartilhar isso com outras pessoas, criando um coletivo que se auto-sustenta, ainda que precariamente. Ao contrário, Rimini nega-se a pensar sobre o passado e, cada vez mais, isola-se de tudo.
"Essa é a mulher da minha vida", costuma-se afirmar após um longo tempo de relacionamento. No entanto, não é possível afirmar que existe "a mulher" ou "o homem" para toda uma vida, como ordinariamente se diz. No entanto, a existência pode colocar em nosso caminho uma pessoa cuja intensidade e presença acaba por transformá-la na mais importante de nossa vida. Sofia não é a mulher da vida de Rimini. Contudo, sua presença é tão marcante que, mesmo sem decidir, ela acaba por se tornar "a mulher" da vida de Rimini. É sobre seu retrato que ele cheira cocaína. É ali, naquele rosto repleto de memórias, que ele encontra a potência para trabalhar, criar e sobreviver. Rimini sofre de reminiscências. Sofia também. Cada qual a seu modo: aquele no silêncio e na perdição da vida contemporânea. Aquela na resignificação extrema do relacionamento, na dramatização dos atos de amor. Sofia e Rimini se amam porque a existência assim o quis. E mesmo separados, continuam a viver uma história de amor. E nem mesmo a falta de memória, o "alzheimer precoce" de Rimini, conseguiu apagar essa marca que, pouco a pouco, transformou-se em ausência.
* Publicado no Caderno Cultura do Diário Catarinense, em 03 de maio de 2008.
Montagem aberta, na ARCO
Uma exposição as escuras. Terminado o processo de criação e montagem, dois artistas (Cláudio Trindade e Roberto Freitas) decidem como um relâmpago promover uma abertura. Sem muitos convites, sem livro de presença, sem coquetel, sem toda a parafernália que torna tudo tão careta no circuito da arte contemporânea. Esta é a exposição “Montagem aberta”, na ARCO, em Florianópolis.

