Roberto Freitas no "Pretexto-pintura"

Usualmente ele lida com fantasmas. Sobreposição de hélices de sistemas de ventilação para computadores (coolers) e lupas conjugadas a uma fonte de luz. Ele constrói imagens assombradas no interior do mal assombrado corredor do Palácio Cruz e Sousa. Assiste-se - entre os fios elétricos dispostos sem quaisquer preocupação, a não ser a de demonstrar o excesso e o próprio modo como as coisas se passam – a um mecanismo que acaba por projetar uma imagem na parede. Eis que surge a pintura em movimento, a partir da escultura tresloucada – com direito ao jogo entre o claro e o escuro. Sem ele, não haveria imagem. Afinal, a luz depara-se com anteparos materiais (lupas, ventoinhas) e acaba servindo para criar zonas de sombras. E é no interior destas zonas sombreadas que se passa o fantástico, o assombrado: duas hélices se superpõem e na sua intersecção percebe-se a diferença de velocidades. Sutil, Roberto Freitas.

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Sem título*

"Figura de traje noturno", Rodrigo Cunha, 2007-2008.

Uma das obras da exposição "Temas para uma realidade", na Fundação BADESC, em Florianópolis/SC. De 13 de março a 23 de maio de 2008.


1. O assombro do olhar cruzado: O caráter posado reveste os quadros de Rodrigo Cunha com alguns sintomas da fotografia. As personagens parecem aguardar que o “pintor-fotógrafo” finalize a representação. Que acione o clique. Inertes, olham fixamente para fora do quadro. Ou seja, seus olhos parecem querer fixar quem os observa: as lentes de uma câmera ou, em última instância, um olhar lançado diretamente ao próprio pintor e ao espectador. Uma lógica especular: no mesmo instante em que se assiste às personagens de Rodrigo Cunha, também se é visto por eles.

2. Após a queda: Em “Duas figuras numa poltrona”, um homem e uma mulher sentados, resistem sobre um chão inclinado. Por trás da aparente estabilidade das coisas – uma poltrona, uma mesa, uma garrafa, um relógio – surge uma gravidade que quase os faz escorregar para dentro do quadro. Se assim o fosse, ambos cairiam bem diante de nossos pés, deixando-nos ainda mais perplexos. O mundano contaminar-se-ia com o universo pictórico. As personagens, após a queda, levantar-se-iam e lançariam o olhar sobre nós, que cá estamos a observar a obra. E só assim teríamos a certeza de que eles são mais reais do que a sala, o casarão e a cidade.

3. O mesmo: Ainda que as coisas pareçam perfeitamente diferenciadas elas se confundem. O mesmo tom de pele das figuras está espalhado pelo ambiente: chão, paredes e corpos, tudo parece se coadunar.

4. Temas para uma realidade: No interior do limite trabalha Rodrigo Cunha: seu repertório é diminuto, o mundo aparece a partir de pouquíssimos elementos. No entanto, no mesmo gesto em que faz repetir os sofás, as paredes, as mesinhas e mesmo os enquadramentos, multiplica-se a possibilidade do real. Afinal, que temas para realidade apresenta seus quadros? Quais realidades querem construir suas representações? O título da exposição, por si só, já instala o público no universo da pintura-limite de Rodrigo Cunha.

5. Saída de emergência: O espaço da solidão é invadido pela paisagem. E é por aqueles rasgos na tela, que funcionam como saídas de emergência dos ambientes herméticos em que estão mergulhados as estranhas personagens, que surge uma cidade. Não uma cidade qualquer. Mas uma Florianópolis. A cidade exaustivamente representada na tradição da pintura local mas que pelas mãos de Rodrigo Cunha ganha outra força. Afinal, ele não se esforça por representar o local, por caracterizá-lo de todo modo. Ele não quer ser um novo Martinho de Haro, um outro Franklin Cascaes. Não quer vender seus quadros aos turistas embasbacados com qualquer referência marinha. O movimento de Rodrigo Cunha parte de dentro para fora: é do interior de seus ambientes construídos que se visualiza pedaços da cidade. Provoca, com isso, um inusitado contato entre seu universo fechado, todo-próprio, que responde a regras pictóricas muito específicas, e a cidade de Florianópolis, que responde, ela própria também, a clichês específicos de representação. Ainda assim, seus personagens continuam com as mesmas expressões, não ganham nenhuma “cor local”. Cunha é forte, seus personagens também.

6. Astigmatismo: Ao fundo da sala de exposições e isolada em uma das paredes, a tela “Interior com vista para baía”, num primeiro momento, causa uma ilusão naquele que a observa. Sobretudo, se o observador possuir alguma deficiência visual. No quadro surge um retângulo branco, na vertical, que se confunde com a própria parede em que a tela está exposta. É como se a parede invadisse a própria obra. Ou o contrário. Em verdade, trata-se de uma impressão astigmática. De todo o modo, é sempre bom agregar o acaso a um pensamento. Ao aproximar-se, percebe-se que o quadrado branco compõe a tela, sendo uma janela do recinto onde se encontra a personagem. E daquela janela surge um espaço urbano. E, após a referência inequívoca da Ponte Hercílio Luz, sabemos tratar-se de Florianópolis. É assim, astigmática e por intrusão que surge a cidade.

7. Sem título: Seres eternamente deslocados. Numa espera sem fim. O que se passou? O que virá? Talvez não haja tempo possível para as personagens de Rodrigo Cunha.

* Publicado no Caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 12 de abril de 2008.

Aspeando

Mestre Carlos Asp em ação! Seu mais recente trabalho pode ser visto no http://br.youtube.com/watch?v=1rvqFYfrC84
Trata-se da exposição "Desenho no Plural", uma coletiva com os artistas Nathália Garcia, James Zortéa, Letícia Costa Gomes, Gerson Reichert, Nina Moraes, Tchello d´Barros e Carlos Asp. De 05 a 26 de março na Galeria de Arte do DMAE, em Porto Alegre.